As pequenas indignidades monstruosas da vida real

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

A matriarca Senada revive drama médico no longa de Danis Tanovic
ZETA / DIVULGAÇÃO
A matriarca Senada revive drama médico no longa de Danis Tanovic

Uma encenação que é realidade. Um documentário em forma de ficção. Uma vida que é filme. Uma história que é muito mais que um simples “Episódio na Vida de um Catador de Ferro Velho”. Ao fazer um recorte tão específico numa família tão nada especial, o longa de Danis Tanovic, que venceu o grande prêmio do júri no Festival de Berlim em 2013, retrata algo muito maior: o quão frágil e variável é o conceito de humanidade.

Vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2002 por “Terra de Ninguém”, Tanovic coloca em cena o catador do título, Nazif Mujic, que também levou o prêmio de melhor ator em Berlim. Ao lado da esposa Senada e da filha, eles reencenam algo que realmente viveram quando a matriarca começou a sentir dores abdominais e, no hospital, recebeu uma das notícias mais trágicas possíveis.

Descendente de ciganos, o pequeno núcleo familiar inicia, então, um calvário. Sem plano de saúde, Nazif e Senada se veem obrigados a implorar por algo que, ao espectador, é um ato de dignidade e misericórdia humana que não devia ter preço.

A referência clara é o neorealismo italiano, retratando a degradação do conceito de humanidade em um cenário adverso. Mas enquanto Rossellini e De Sica tinham a guerra recente como pressuposto de suas crônicas, “Um Episódio” mostra uma visão fria, burocrática e capitalista da dignidade e direitos básicos com a qual a sociedade contemporânea decidiu conviver (e ignorar) sem remorsos.

Mesmo com uma câmera que busca não interferir e uma encenação seca e sem arroubos, Tanovic inevitavelmente faz a família reviver o trauma e coloca em cheque o papel do cinema. Seu filme pergunta: quem é pior, a sociedade que permite que isso aconteça, ou a arte que explora isso dramaticamente?

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