A primeira infância em cena

“Menino Azul” mistura jogo, música, poesia e bonecos para criar espetáculo voltado a crianças de 1 a 5 anos

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Brincadeira. Juliana Palhares e Cauê Salles representam versões de si mesmos nos bonecos que criam
Felipe de Oliveira
Brincadeira. Juliana Palhares e Cauê Salles representam versões de si mesmos nos bonecos que criam

Professora e coordenadora de arte da Escola da Serra, Juliana Palhares trabalha com crianças pequenas há 15 anos. Quando desenvolveu um projeto sobre o rio São Francisco para a escola, ela teve que criar uma história para trabalhar o tema com os alunos em sala de aula.

Dessa troca, acabou surgindo o espetáculo de bonecos “Menino Azul”, que o grupo Matraca exibe nesta quinta e sexta no Teatro da Cidade, dentro da programação do FIT (veja a agenda na página 10). “A peça veio, na verdade, da ideia de conceber um espetáculo para entender essas crianças da ‘primeira infância’, de 1 a 5 anos”, lembra Juliana.

Essa busca se refletiu desde o início, quando ela decidiu adaptar o texto construído em sala para uma obra dramatúrgica. Pesquisando desde autores como Manoel de Barros e Bartolomeu Campos de Queirós à estrutura de contos de fadas e literatura popular, o grupo tentou criar um universo que não só fosse respeitoso com seu público, mas que fosse dele. “Não é um espetáculo feito para adultos, nem um olhar adulto sobre a criança. É uma tentativa de entender a própria criança, o que é uma grande diferença”, explica a atriz e roteirista.

Esse se tornou o norte dos três anos de pesquisa, em que o foco principal era entender as concepções de espaço, enredo e história de crianças nessa idade. “É um público que não lê, mas que compreende narrativa. Então, o desafio era entender o que é narrativa para elas”, elabora ela.

Para estabelecer esse diálogo, “Menino Azul” faz uso de estratégias pontuais, como a repetição de palavras e a performance de canções infantis, com arranjos de Gustavo Mafra e interpretadas ao vivo pelos próprios atores Juliana Palhares e Cauê Salles. “Entendemos ainda que a estrutura da narração é importante, mas não é o mais importante do espetáculo. O texto vai e volta, bem similar à cognição dessas crianças”, acrescenta a atriz.

Grande parte dessa ‘adaptação ao público’ veio também do trabalho com o diretor Rodrigo Robleño, palhaço e parceiro de longa data do grupo criado em 1998. “Ele foi desconstruindo qualquer tipo de encenação mais pomposa minha e do Cauê”, conta Juliana. O objetivo, segundo ela, era aproximar a montagem do jogo da criança e do palhaço, sem chegar a ser nenhum dos dois.

“Os personagens na peça somos nós mesmos, o Cauê e eu, e essa construção de nós dois em cena virou o jogo e a brincadeira que abre o diálogo com as crianças do público”, ela explica. Esse processo é materializado na própria encenação de “Menino Azul”. No espetáculo, os atores não só manipulam, mas também usam objetos e criam com eles seus próprios bonecos ao vivo, na frente do espectador. “São objetos do dia a dia – como copos, pedaço de pano, papel – com que as crianças brincam normalmente”, descreve.

Sétima montagem do Matraca, “Menino Azul” estreou em setembro do ano passado no Spetaculo Casa de Artes. O convite para o FIT marca o primeiro ano em que o festival abre espaço para peças infantis. “É uma experiência super importante porque criança é um espectador com exigências próprias que precisam ser contempladas”, ela defende.

Além do aspecto fundamental da formação de público, Palhares acredita que a abertura coloca o espetáculo infantil no mesmo grau de importância do adulto. “Para mim, não existe diferença”, argumenta.

Por fim, segundo a atriz, o reconhecimento valoriza os grupos que realmente trabalham com pesquisa para esse público. No caso de “Menino Azul”, o Matraca tenta desacelerar o tempo da criança, que hoje é muito rápido e agitado, e levar seu espectador para uma experiência mais contemplativa, a um estado de atenção diferente construído junto por atores e crianças. “É um espetáculo lúdico, muito mais perto da poesia que da prosa”, sintetiza.

“Café”

Intervenção esvaziada.

A programação de rua do 12º FIT-BH começou na manhã desta quarta, às 9h, esvaziada e silenciosa. Em vez de um espetáculo mobilizador de multidões, viu-se a intervenção solitária da atriz Tatiana Lenna na Estação BH Bus de Venda Nova. Sentada em uma cadeira, ela tentava atrair a atenção dos passantes manchando com gotas de café as vestes brancas. Tal como Estamira (levada ao teatro pela carioca Dani Barros), sua personagem é uma mulher intelectual e psicologicamente abalada, capaz de proferir ideias incomodamente lúcidas em sua deficiência lógica. A composição vocal e corporal da atriz dá densidade ao trabalho. Lenna é hábil em estabelecer uma relação próxima com o espectador (um vínculo frágil) pelo olhar e tom de voz. Contudo, na estreia, a estação de ônibus serviu mais como cenário da performance do que esta de fato interviu sobre aquele espaço. Jornalistas, fotógrafos e equipe de produção eram mais numerosos do que espectadores espontâneos – uns 15 pararam por alguns minutos para ver. A outros, a personagem foi só mais uma mulher despercebida na correria cotidiana. (Luciana Romagnolli)

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