Acordeon de volta à frente

Revalorizado, instrumento vive novo momento diante dos jovens

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

O cearense Adelson Viana aprendeu a arte em família, com o pai
Adelson Viana / acervo pessoal
O cearense Adelson Viana aprendeu a arte em família, com o pai

Nação de acordeonistas (ou sanfoneiros) muito virtuosos, como Luiz Gonzaga e Dominguinhos, o Brasil viveu uma paixão intensa pelo instrumento até meados da década de 1950. A relação se esfriou ao longo do tempo, sobretudo depois do advento da Bossa Nova, quando o violão passou a ser o instrumento de desejo dos jovens. Uma nova abordagem do instrumento na cena brasileira se deu a partir de músicos como Sivuca, que o aproximaram do universo erudito. Hoje, há um novo momento de valorização, que o traz para o ambiente urbano e da contemporaneidade.

 

Essa é a opinião de muitos instrumentistas e de Célio Balona, que além de curador da segunda edição do Festival Internacional de Acordeon, realizado em Belo Horizonte até domingo, também pratica o instrumento.

“Na programação do festival, é possível ver como o acordeon pode deixar o fundo do palco, pela sua nobreza. Nas apresentações, há vários momentos solo, em que o instrumento é tocado de forma belíssima, sozinho. Acho que o Brasil está pronto para enxergar o acordeon com a importância com que a Europa o encara. Lá, ele é estrela de primeira grandeza”, diz Balona.

Um dos ícones da geração que transpôs a ponte entre o popular e o erudito, o acordeonista Toninho Ferragutti concorda com ele e enfatiza que há um aumento do interesse do jovem pelas possibilidades técnicas do instrumento. “Gosto de dizer que o acordeon está ficando cada vez mais ‘normal’, porque nos grandes centros ele se universaliza, deixando de ser exclusivo da música regional”, completa Ferragutti.

Hereditário. Tradicionalmente, na cultura brasileira, o acordeon é um instrumento de família, passado através das gerações. Entre os músicos que irão se apresentar no festival, o cearense Adelson Viana, por exemplo, foi iniciado na música aos 12 anos de idade e teve como mestre o seu pai, José Viana.

Segundo Balona, essa tradição aparece com muita força no Nordeste brasileiro, com famílias que carregam a música no sobrenome. “São linhagens de músicos que vêm de muito tempo, cada lugar tem sua família de sanfoneiro que anima as festas do interior”, diz.

Apesar de nascido no interior de São Paulo, Toninho Ferregutti também veio de uma família de músicos – o pai era saxofonista. “É um instrumento apaixonante, alegre e triste. O meu pai sempre me incentivou a tocar um instrumento e eu tinha um tio que tocava acordeon, que foi quem me apresentou. Era muito fascinante para não querer aprender”, afirma ele.

Prova de que essa hereditariedade é comum também fora das fronteiras nacionais, o quinteto portenho de Dino Saluzzi, que se apresenta no sábado, é composto por ele, um irmão, um sobrinho, um filho e um músico agregado. “Tem um quê de muito familiar na arte do acordeon. Isso é inegável”, conclui Balona.

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