O espírito do nosso tempo

iG Minas Gerais |

O pequeno MC Pedrinho está bombando nas redes sociais com “Dom Dom Dom”, música que faz referência a sexo oral. O sucesso desse menino de 11 anos deriva não só do fato de enveredar pelo gênero que anima bailes das galeras jovens das periferias, mas pelo inusitado feito de fazer ecoar uma letra cujo fim do refrão é impublicável. Pedro Maia faz sucesso. Há dias, outro menino, também de 11 anos, Bernardo Boldrini, foi assassinado pela madrasta com uma injeção letal no braço esquerdo. Os garotos, da mesma idade, de origens e classes sociais distintas – Pedrinho, filho de uma doméstica; Bernardo, filho de médico –, traduzem o espírito do tempo em nossos trópicos. Sementes do declínio moral se espalham nas searas dos costumes, na esteira do embrutecimento da vida cotidiana, simbolizado por formas de comportamento antissocial, como uso de drogas, criminalidade e violência. Os valores tradicionais fenecem. Os conflitos se expandem. Tal leitura, que se aplica aos mais diferentes Estados democráticos, ganha ênfase por aqui em função do poder corrosivo que, nos últimos tempos, devasta a paisagem institucional. A política escancara uma torrente de escândalos. A gestão pública perde eficácia. A dinâmica social puxa contingentes de baixo para morar nos andares de cima da pirâmide, mas deixa para trás valores tradicionais que formam a argamassa da cidadania. Muitas leis entram no lixo todos os dias. No deserto dos valores, o nivelamento cultural tende a se dar por baixo. Os comportamentos obedecem à liturgia da mimese. Imitam-se gostos, adereços, gestos, danças, roupas de atores e atrizes de novelas. Por isso mesmo, Pedrinho está bombando. Sob os cuidados de um empresário que comanda seus passos. Afinal, $$$$$ são o que interessa. E assim rola o show business. Bernardo Boldrini, o outro menino, era problemático. É o que se dizia dele. O pai não lhe dava atenção. A mãe biológica, segundo a polícia, se matou em 2010. A madrasta, diz-se, estaria cobiçando a herança. Enganou o enteado, levando-o para fazer uma consulta com uma mãe de santo. A linguagem do ritual é de arrepiar. Santo, benzer, rezar. Palavras que expressam hosana nas alturas para salvar o menino. Que desfaçatez. Armava-se a trama do assassinato. Chama a atenção o fato de o garoto ter pedido o apoio do MP para ser acolhido por outra família. Não foi atendido. Tudo isso entra na arena da banalização da maldade, reforçada por ações (inações) de órgãos de defesa da sociedade, governantes e representantes. Como se explicam, por exemplo, os 3.000 casos de pessoas enterradas como indigentes em São Paulo, apesar de portarem documento de identidade? Como se explica o despacho de levas de haitianos para São Paulo e outras cidades, sob decisão unilateral do governo do Acre? Onde estão os entes governativos? O espírito do nosso tempo é de trevas!

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