O mundo virtual como espaço minado por armadilhas cruéis

iG Minas Gerais |

DUKE
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Sobre o “mondo cane” da internet, lembro-me de uma frase de Martha Medeiros: “Não fale, não conte detalhes, não satisfaça a curiosidade alheia. A imaginação dos outros já é difamatória que chegue”. É por isso que muitos estão abandonando o Facebook. A exposição excessiva e a falta de critério na escolha de quem pode acessar as informações geram problemas de imagem pessoal. Mas não é só isso. O mundo virtual assusta ainda por outros motivos: pela voracidade com que se consomem informações escandalosas e pela virulência dos ataques feitos por anônimos. Em artigo recente sobre o “mondo cane” da internet, listei as notícias mais lidas no site G1. Praticamente todas se relacionavam com algum tipo de desgraça, revelando o apreço do internauta pelos textos que tratam de misérias. No mesmo artigo, mencionei aqueles que têm prazer doentio em agredir, como se o próprio fracasso existisse na contrapartida do sucesso do outro. Quanto ao tema dos ataques encobertos pelo anonimato, lembro que já escrevi sobre isso em 2010, a propósito do uso da internet nas eleições. Dizia então “que o uso da internet na disseminação da informação teve no anonimato o seu pior e mais perverso aspecto. Nesse sentido, alinho-me a Arthur Schopenhauer, que dizia que o anonimato serve para tirar a responsabilidade daquele que não pode defender o que afirma”. O ator Bruno Mazzeo, em comentário publicado no jornal “Extra”, disse ficar impressionado com a capacidade de as pessoas se odiarem pela internet. Como tantos outros, ele é vítima de agressões gratuitas pelo simples fato de existir como artista e celebridade. O mesmo ódio se revela nos comentários em sites e blogs, quando muitos, por meio de nomes falsos ou apelidos, denigrem pessoas e instituições pelo simples prazer de falar mal. Além de, na maioria das vezes, castigar sem dó nem piedade a gramática. Creio que, no Brasil, tanto o consumo colossal de besteiras quanto as agressões de anônimos ao que está exposto na internet estão ligados à falta de educação, à sensação de impunidade e aos instintos baixos que habitam os seres humanos. E que afloram, em uma espécie de retrocesso civilizatório, pelo desapreço a valores éticos e morais. Muitos são doentes que se satisfazem em comentar o que o outro disse sem adentrar o mundo das ideias, campo em que não conseguem transitar. E como não conseguem debater em alto nível, buscam o campo da agressão como forma de saciar o vício solitário e virtual de caluniar. Veem o mundo a partir da ótica dicotômica do gostar ou não gostar, sem, no mínimo, respeitar as diferenças e as peculiaridades. Os tempos atuais, com a profusão de meios de expressão, trazem a popularização do falar mal, na imprensa marrom e sensacionalista e nos comentários em blogs e sites. Por outro lado, os intolerantes lançam mão de mecanismos de censura. No Brasil, onde estamos na infância da democracia, nem a libertinagem “esculhambativa” nem a censura são opções para os males virtuais de nosso tempo. No campo real, a Justiça deve atuar em resposta às agressões. O bom exemplo deve ser mostrado, e os crimes do mundo virtual não podem ficar impunes. Já no campo ideal, a questão é mais complexa. E demanda tempo. A educação e a responsabilidade são os caminhos para que a baixaria não impere no mundo virtual. A integração positiva entre as leis e sua aplicabilidade e a melhora na consciência dos deveres e direitos do cidadão são o melhor caminho.

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