Festival vai à periferia de BH

Na contramão de edições anteriores que investiam em grandes espetáculos no centro, festival chega às regionais

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Performance “Café?” desafia limites entre a ficção e a realidade
ronaldo dimer/divulgação
Performance “Café?” desafia limites entre a ficção e a realidade

Se o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte Palco & Rua (FIT- BH) optou por não abrir suas atividades com um grande espetáculo de rua na sua edição comemorativa de 20 anos, não significa, no entanto, que os espetáculos em espaços abertos não estejam entre os carros-chefe da programação. Já há algumas edições, as produções dedicadas à rua funcionam como uma espécie de coringa que “serve” a públicos de lugares diferentes da cidade. Pois, dois desses “coringas” começam suas peregrinações pela regionais da cidade hoje. “As Raízes do Mineiro Pau e Boi Pintadinho”, de Miracema, região Noroeste do Rio de Janeiro e “Café?” de Piracicaba, São Paulo, se apresentam hoje no Parque Jornalista Eduardo Couri e na Estação BH Bus Venda Nova, respectivamente. Indo na contramão dos espetáculos grandiosos, com bonecos gigantes e grande concentração de gente ao redor – já vistos em edições anteriores do FIT –, “Café?” propõe uma intervenção performática em que o limite entre o teatro e o cotidiano, muitas vezes, não fica claro. “Nem sempre é possível para as pessoas entenderem se eu sou apenas uma pessoa comum que está ali naquele lugar de circulação ou se é uma encenação”, comenta a atriz Tatiana Lenna, integrante da Companhia Efêmera. A intervenção acontecerá em estações BHBus (Venda Nova, São Gabriel e Diamante) espalhadas pela cidade e na rodoviária de Belo Horizonte. Sua estratégia é justamente explorar esses limites da invisibilidade vistos nos centros de aglomeração das grandes metrópoles. “Buscamos uma qualidade de corpo e de expressão vocal que mostre essa deformação das pessoas em suas rotinas”, destaca a atriz. O grupo formado por ex-integrantes do Centro de Pesquisa Teatral – CPT, buscava uma linguagem própria quando decidiu dialogar com a cidade e com a pessoas que fazem parte dela. “É uma mulher que está à espera de alguém e que começa a falar desesperadamente com as pessoas que estão ao seu redor”, explica a atriz. Patrimônio. Por outro lado, o Boi de Miracema investe em um festa com origens folclóricas para alegrar o público com o espetáculo “As Raízes do Mineiro Pau e Boi Pintadinho”. A versão da história folclórica do Boi Bumbá da peça mostra uma mulher grávida, que tem desejo de comer a língua do boi. O marido mata o animal, mas tem que ressuscitá-lo, pois era o boi preferido do patrão. Ele, então, se veste com o couro do animal para o seu patrão ficar contente e acaba criando a dança do boi. A encenação ainda traz elementos do Mineiro Pau, dança com bastões que nasceu entre os escravos, nos terreiros de café. “Nós fizemos uma adaptação das festas populares de nossa região para uma estrutura mais teatral”, garante Totonho, integrante do Boi de Miracema. Com quase 30 intérpretes em cena, a história narrada pelo espetáculo fluminense se baseia no Boi Bumbá. O artista revela que o espetáculo, basicamente musical, se vale de fortes elementos da cultura afro. “O Boi tem origens populares. Quando as pessoas não tinham dinheiro para participar dos desfiles do bloco de Carnaval, resolveram criar o seu próprio cordão. Nosso trabalho é uma forma de preservação de um patrimônio imaterial”, ressalta Totonho.

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