Minha filha é penta

iG Minas Gerais |

CHARLES SILVA DUARTE – 8.4.2009
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Geralmente, quando usamos este espaço para que experiências pessoais possam ser relatadas, a repercussão é grande. E assim foi quando falamos sobre as agruras às quais passam os candidatos à carteira de motorista. Nesse sentido, recebemos um e-mail do empresário Vinicius Pompeu, que nos conta o périplo de sua filha Mariana na busca da permissão para ir e vir dirigindo. “Foram quatro tentativas e finalmente, aos 45 minutos do segundo tempo, a glória. Depois de quase um ano (faltavam três dias para o fim do prazo), Mariana passou no exame de rua. Ganhou o tão esperado carimbo de aprovada. Foram mais de 60 aulas e muito estresse após cada reprovação, e a carteira de habilitação foi o troféu ao calvário em duas autoescolas ao longo de 362 dias. E agora? Está apta a dirigir pelo mundo afora? Dois meses se passaram depois da aprovação e começo a sentir mais segurança na minha filha para dirigir (já pegou até estrada). Mas, para isso, tive que fazer a função de pai apaixonado e dar algumas aulas e dicas que nenhuma autoescola ensina. Tirei minha carteira em 1986. Os tempos eram outros, a exigência de cinto de segurança, a Lei Seca e, agora, a obrigatoriedade de ABS nos veículos passavam longe dos órgãos de trânsito. Aprendi a dirigir nas famosas Brasílias, sem direção assistida, ar, ABS e, geralmente, com folga no volante. Aprendi a fazer baliza no meio de carros, a entrar e sair de uma garagem, estacionar em estacionamentos fechados e recebi muitas dicas de um profissional que, com 20 aulas, me fez passar no primeiro exame que fiz. Pasmem, no dia da prova, um sábado, fiz uma aula das 11h às 12h e, logo depois, eu e meu instrutor fomos tomar uma ‘cervejinha’ com torresmo, aguardando a hora, pode? Naquela época, isso passava desapercebido. Paixão passada de pai para filho, os carros sempre exerceram em mim um fascínio. Hoje tenho um veículo que, quando garoto, nunca sonhei que teria um dia: ABS, câmbio automático, câmera de ré, acionamento do motor a distância, sensores de aproximação nos retrovisores. As leis de trânsito e as exigências também buscam a melhoria, mas e as autoescolas? Evoluíram? No meu ponto de vista, de 1986 para cá, o que ocorreu foi uma estagnação, para não dizer um retrocesso. Elas ensinam os alunos a passar em teste de rua, e pronto. Será que realmente esses candidatos estão aptos a encarar funções simples como entrar em um shopping, fazer baliza entre dois veículos, trocar um pneu, usar um ABS, dirigir um carro automático? Para que um simulador, se não ensinam aos alunos a importância de se ler um manual do veículo? Semana passada, ao sair de um posto de gasolina, estava em minha frente um Honda City que aguardava para entrar na avenida. Eu esperava pacientemente quando de repentes ele engatou a ré e acelerou na minha direção, batendo sua traseira na grade do para-choque dianteiro do meu veículo. Quem dirigia? Um rapaz com uma semana de carteira na mão. Do lado do passageiro, saiu o pai com cara de envergonhado e, sem graça, me disse: ‘Desculpe, ele não aprendeu a dirigir carro automático, e estou ensinando’. Resumo da ópera: precisamos evoluir muito na questão dos testes de rua e no que devemos aprender nas autoescolas, que não ensinam coisas importantes como o uso do freio ABS, a fazer baliza na esquerda (hoje só ensinam a fazer do lado direito da via). O mais importante nas aulas é colocar o bracinho para fora sinalizando a parada. Ridículo! Quem faz isso? Aliás, quem tem coragem de fazer isso? Aprender a dirigir tem que ser algo prazeroso e com responsabilidade, que chame a paixão e o senso crítico desses jovens que tomaram a decisão de enfrentar um automóvel, mostrando a eles que em suas mãos existe uma máquina, que é útil, mas que malconduzida ou mal-utilizada pode machucar e matar. Meu desejo é para que os Detrans da vida não fiquem estacionados (entre cones ou cabos de vassoura) no tempo”. 

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