De volta ao banquinho e violão

No seu mais recente trabalho, Adriana Calcanhoto reaprendeu a tocar violão para reinventar suas próprias canções

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

DVD. Na gravação ao vivo, Adriana se apoia apenas em seu violão para apresentar 20 canções
LEO AVERSA / divulgação
DVD. Na gravação ao vivo, Adriana se apoia apenas em seu violão para apresentar 20 canções

Antes de estourar no fim dos anos 80, Adriana Calcanhoto estava acostumada a carregar seu violão por churrascarias de Porto Alegre e reinventar com delicadeza e bom senso qualquer música pedida pelo público – de Chitãozinho e Xororó a Vinicius de Moraes. Mais recentemente, após ficar um ano e meio sem dedilhar nenhuma corda por causa de um cisto na mão já tratado, a compositora teve que reaprender a tocar o instrumento. Por isso, o DVD “Olhos de Onda”, lançado agora, traz a compositora às origens e resgata o cenário banquinho, violão e Adriana – formato que ela não repetia de forma absoluta no palco há 14 anos.

Ela até tentou forçar a barra, mas teve que se afastar do companheiro que conheceu ainda aos 6 anos, quando ganhou o primeiro Giannini de cordas de nylon da avó. “Eu ligava para o meu médico todo dia perguntando se eu podia tocar violão e ele dizia: ‘claro que não’. Foi difícil porque tenho uma relação forte com o violão e tive que me adaptar a outros instrumentos”, conta. O costume foi transformado em alternativa para os shows do disco “Micróbio do Samba” (2011), em que a cantora troca o som de cordas pelo secador de cabelos, além de usar caixinha de fósforos e xícaras de chá enquanto estava lesionada.

“Eu queria esquecer a forma como eu tocava violão porque não podia tocar e acabei esquecendo mesmo”, diz. No meio do esquecimento, veio a lembrança em 2013: um convite para fazer uma turnê em Lisboa, justamente no formato voz e violão, que ela não executava desde “Público” (2000), álbum que levou a cantora e compositora gaúcha ao topo das paradas musicais brasileiras com “Devolva-me”.

“Cheguei a ter uma indecisão entre tocar violão de novo ou de repente sair da zona de conforto e compor de outras maneiras. Mas eu gosto de fazer show voz e violão. E foi isso que eu fiz em Portugal, aqueles mares poéticos me inspiram, foram shows muito incríveis que fizeram esse DVD nascer com alma”, diz.

Novas Águas. Influenciada por Fernando Pessoa, após dormir uma noite no quarto do poeta, em Lisboa, Adriana Calcanhoto também bebeu na fonte de Machado de Assis para assinar “Olhos de Onda”, o novo DVD – o título faz referência aos olhos oblíquos de ressaca de Capitu, de quem ela confessa ser “fã incondicional pela forma sincera que a cabocla consegue confundir e enganar”.

Mas, a poesia não é apenas influência, e sim uma espécie de mantra na música de Adriana Calcanhoto. Durante todo o espetáculo, ela apoia o pé esquerdo sobre uma pilha de livros de poesia, entre eles algum exemplar do poeta inglês Thomas Eliot (“para não cansar a perna, melhor que seja com leveza poética”).

Enquanto uma luz solitária ilumina apenas seu rosto, as primeiras cenas do DVD mostram closes fechados dos dentes, poros, pelos e olhos da compositora, como se ela fizesse parte de um filme e fosse sendo revelada pouco a pouco, enquanto abre o show com “Noite da Cidade”, de Caetano Veloso. A canção é uma homenagem ao Rio de Janeiro – cidade onde ela reside desde 1990 e escolheu para gravar esse DVD no dia 1º de fevereiro, no Vivo Rio.

Acostumada a dar outros significados a canções alheias, Calcanhoto passeia pelos seus próprios clássicos – “Inverno”, “Vambora” e “Esquadros” – de forma diferente. “Não lembro os dedilhados originais, acabei reinventando o jeito de tocar com outra malemolência nos dedos”, diz.

No restante do repertório, ela surpreende com uma versão de “Back to Black”, de Amy Winehouse. Entre as parcerias, destaque para “Motivos Reais Banais” (em que ela musicou a primeira parte de um poema do baiano Waly Salomão) e também “Para Lá”, que tem melodia dela e letra de Arnaldo Antunes.

Para quem foi criticada por apresentar um cansaço na voz nas apresentações recentes – como no show do Prêmio da Música Brasileira 2013 –, ela mostra nesse novo trabalho que não é preciso mudar para se reinventar. “Eu estava cansada porque faço muita coisa ao mesmo tempo. Engraçado é que redescobri minha energia quando me afastaram da minha paixão: sem violão, não tem Adriana, é fato”, diz.

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