Salva-vidas de clube chamado de 'preto' entra com ação contra advogada

Mulher teria dito que homem não era habilitado para ser salva-vidas por ser negro e disse que onde ela e os filhos frequentam "preto não dá ordem"

iG Minas Gerais | JOSÉ VÍTOR CAMILO |

"Onde eu e meus filhos estamos, preto não dá ordem". Esta frase teria sido dita por uma sócia de um clube, localizado na região Centro-Sul de Belo Horizonte, à um salva-vidas do local em dezembro do ano passado. Indignado com a frase racista, o funcionário entrou com uma ação pedindo indenização de R$ 30 mil por danos morais, sendo que a audiência de conciliação aconteceu na tarde desta segunda-feira (5), no Fórum Lafayette, e terminou sem acordo. Agora, o funcionário pretende entrar com uma nova ação, desta vez criminal, por racismo.

O funcionário do clube, de 52 anos, preferiu ter a identidade preservada e também o nome do clube, por ainda trabalhar no local e acreditar que tenha sido um caso isolado. A ofensa racista teria acontecido no dia 3 de dezembro de 2013. "Estava trabalhando normalmente quando vi uma garotinha nadando perto da saída do toboágua. Para evitar que ela fosse atingida por algum adulto que descesse no brinquedo, retirei ela da piscina e expliquei o porquê", lembrou o salva-vidas.

Como muitas pessoas se aglomeraram na hora, a mãe da menina, que é advogada, teria continuado sentada até que o movimento diminuísse. "Quando não tinha quase ninguém perto ela veio e disse que eu não estava no lugar certo. Quando perguntei por que ela disse 'olha a sua cor, você está no lugar certo?'", contou o funcionário do clube. 

Logo em seguida a advogada teria disparado que ele nem sequer era habilitado para o serviço por conta de sua cor. "Foi aí que ela soltou a frase mais preconceituosa, dizendo que onde ela e os três filhos frequentam preto não dá ordem. Imediatamente disse que procuraria meus superiores e a polícia para fazer uma ocorrência e ela esnobou, dizendo que veria onde isso iria dar", disse. 

O homem, que é funcionário do clube há cinco anos, disse nunca ter passado por qualquer problema semelhante. "Uma advogada, pessoa estudada, falar uma coisa dessas em pleno século XXI? Se fosse um leigo, mas uma pessoa com cultura fazer algo como isso é absurdo. Vou levar este processo até o fim", afirmou.

A audiência

Tanto o salva-vidas quanto a advogada confeccionaram boletins de ocorrência, sendo que a acusada nega tudo. A princípio, o homem entrou com uma ação por calúnia e difamação, acreditando que isso seria suficiente para o arrependimento da ré. Porém, após a audiência de conciliação terminar sem acordo, o funcionário do clube decidiu que entrará com uma nova ação, desta vez por racismo. 

"Este processo, que já teve a primeira audiência, irá para a 5ª Vara Cível. Tenho duas testemunhas que presenciaram as ofensas arroladas, sendo que uma delas também foi indicada pela advogada. Como ela disse que não pagaria a indenização, agora entrarei com a ação pro injúria racial", explicou. O crime, tipificado no artigo 140 parágrafo 3º do Código Penal, tem pena prevista de um a três anos de reclusão e multa. 

"Queria que doesse no bolso para ela tomar mais cuidado com o que fala. Mas com a ação por racismo, talvez ela até perca a carteira de advogado e, sem exercer a profissão, quem sabe ela coloque a mão na consciência. Não quero dinheiro, quero que aprenda", finalizou o salva-vidas. 

O advogado da ré, Leonardo de Souza Lopes, foi procurado por O TEMPO para falar sobre a acusação e disse apenas que a cliente preferia não se manifestar sobre o caso.