Memórias como fio condutor

Em nova obra, que ele lança hoje em Belo Horizonte, Cristóvão Tezza revê a vida de um professor antiquado

iG Minas Gerais | Deborah Couto |

Papo literário. Escritor Cristóvão Tezza lança hoje obra que tem professor de filologia romântica como personagem-título
Guilherme Pupo
Papo literário. Escritor Cristóvão Tezza lança hoje obra que tem professor de filologia romântica como personagem-título

A filologia romântica é uma disciplina praticamente extinta dos cursos de letras. Ela é a especialidade de Heliseu, personagem central do romance “O Professor”, o mais recente de Cristóvão Tezza, a ser lançado hoje no projeto Sempre um Papo, no Palácio das Artes. E isso, aliás, diz muito sobre ele.

A história se desenrola a partir de uma homenagem que Heliseu, 71, receberá por sua dedicada carreira na universidade onde leciona. Ao preparar o discurso para a cerimônia, o professor é tomado de assalto por suas memórias, mais pessoais que relacionadas ao trabalho. E são elas que preenchem as páginas da obra, com a intenção de ser como as memórias se apresentam a nós: caóticas e fragmentadas.

“A literatura faz apenas uma representação do funcionamento da memória. Na realidade, ela é muito menos organizada do que se apresenta em um livro. Para o leitor, transmitimos uma ideia de recomposição psicológica do tempo. É um artifício para o qual minha literatura foi se encaminhando. Esse aspecto ‘serpenteante’ da escrita”, nos conta Cristóvão Tezza.

Heliseu é um homem à moda antiga, assim como a disciplina que leciona. A visita a outras gerações se dá no livro através de narrativas históricas não ficcionais. Porém, é a história de Heliseu que conduz o leitor a saber dele, por ele mesmo, até o presente. A convivência com um pai durão e a perda da mãe; sua própria dureza em relação ao filho, gay e residente nos EUA, com quem tem quase nenhuma convivência; o casamento burocrático com Mônica, já morta e a quem nunca admirou, mas que “aconteceu” em sua vida; a paixão pela orientanda Therèze, uma mulher de outra geração, que se recusa a se casar e para quem ele mesmo nunca foi uma opção.

“Heliseu é um homem de outra geração. Tudo nele quer afirmar esse fato. O casamento com Mônica, por exemplo, foi um acaso. Ela se apresentou em sua vida de maneira muito forte, já que ele era um homem solitário e distante das mulheres. Ele acabou se casando e assim permanecendo, um tipo de compromisso muito antigo. Heliseu é de um tempo em que não havia a liberdade de escolha de se sair tranquilamente de um relacionamento. Seria traumático”, afirma Tezza. Já Therèze “é simbolicamente a imagem do fascínio sexual”. “Uma mulher mais jovem e atraente, além de uma paixão intelectual. Ela é uma escolha, apesar de não ter optado por ele”.

Romance maduro. Além da relação com as mulheres, a história de Heliseu traz muitos recursos que dão margem a inúmeras interpretações psicologizantes. A relação entre pai e filho. A repetição entre suas histórias. A representação das pessoas em sua memória, tudo se apresenta em um texto circular que nos traz uma informação a mais a cada etapa, mesmo que ela pareça falar sobre o mesmo assunto anterior.

Tezza é um escritor com mais de uma dezena de romances publicados e essa maturidade literária pode ser sentida em “O Professor”. “Sou um escritor muito intuitivo. As ideias não se apresentam a mim de caso pensado, sob um esquema. Mas sei, por exemplo, que quando uma pequena cena se esgota, você precisa de algo novo, por exemplo. A maturidade vai tornando a realidade mais complexa. Um escritor jovem é mais esquemático. Eu sempre me dei mal com essa ideia polarizada de ‘bom e ruim’, ‘esquerda e direita’. Tento revelar o mundo com a complexidade que ele se apresenta a nós”, diz Tezza.

Outro dos recursos utilizados pelo autor em “O Professor” é uma espécie de homenagem: as constantes citações de passagens de Drummond. “Tenho uma relação muito profunda com a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Ele é uma referência literária obrigatória e tinha uma sensibilidade muito apurada. O enxergo como uma das cinzas mais profundas do melhor da alma brasileira na literatura”, afirma Cristóvão Tezza, que acredita na escrita como uma forma de organização do mundo.

Agenda

Sempre um Papo. Hoje, às 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro). A entrada é franca.

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