Filme se perde entre melodrama e drama realista

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |


Longa foi filmado no lixão do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro
IMOVISION
Longa foi filmado no lixão do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro

Não é coincidência que Ângelo Antônio conte que o filme a que assistiu com o diretor Philippe Barcinski e que mais influenciou seu trabalho em “Entre Vales” foi “Biutiful”, de Alejandro González Iñárritu. Do diretor mexicano, o filme brasileiro importa o princípio melodramático de um acidente trágico que muda a vida de um mero mortal, além da estrutura não-linear do vai e vem temporal que intriga o espectador sobre sua lógica.

Mas assim como em “Não por Acaso”, seu longa anterior, Barcinski tenta ao máximo fugir do melodrama. Segundo ele, “Entre Vales” é um filme seco que propõe o acesso direto do espectador à emoção, sem edulcorar e direcionar demais – daí, a quase ausência de trilha musical. “É uma marca de um cinema de arte contemporâneo, como os filmes dos irmãos Dardenne, com um sentimento cru, o tempo dilatado, um plot pequeno, uma situação dramática que se estende e você entra nela sem o filme te contar ‘sinta isso ou aquilo'”, compara o cineasta.

O problema é que, ao tentar contar uma trama e construir um universo de elementos dardennianos com uma estrutura de Iñárritu, o longa não atinge nem o realismo quase documental dos primeiros, nem o impacto emocional do segundo. Barcinski e seu montador Leopoldo Nakata conseguem com que as histórias de Vicente, um pai de família em crise no casamento e no trabalho, e do catador de lixo Antônio, ambos vividos por Ângelo Antônio, tornem-se uma só. Mas eles não são capazes de fazer com que essa som resulte em produto maior que as partes.

Barcinski afirma estar interessado em filmes cujas imagens sejam mais do que aquilo que o público vê na tela. A ironia é que ele acaba se deixando seduzir por uma delas: o lixão. Foi ali no Aterro de Gramacho (onde Eduardo Coutinho filmou “Boca de Lixo” e Marcos Prado fez “Estamira”), no Rio de Janeiro, que o longa começou no início dos anos 1990, quando o diretor realizou uma pesquisa para um documentário não realizado. Anos depois, ele decidiu escrever um roteiro que transmitisse na tela “a potência daqueles lugares. Você não sai imune do lixão”.

Em sua pesquisa, Barcinski descobriu que lixões são locais de perda, aonde ninguém vai por opção. E as associações de catadores que visitou são lugares de reconstrução. Para ele, “Entre Vales” seria isso: uma história de perda e reconstrução.

“A ideia do filme é que o mundo todo fosse se desfazendo ao redor dele”, elabora. No entanto, o longa fica fascinado pelo lixão, onde se estende demais. E essa dinâmica para cima e para baixo descrita por Barcinski – e que a montagem tenta construir na justaposição das duas trajetórias – acaba se transformando em um único movimento descendente rumo a um fundo do poço, onde ele se estagna.

E esse não é um lugar agradável, o que torna a digestão de “Entre Vales” mais difícil do que ela precisava ser. E no cenário atual do cinema brasileiro, em que quem não faz rir chora, isso pode ser um grande obstáculo para a performance do filme nas salas.

Compensando esse peso trágico, estão as atuações do núcleo familiar composto por Vicente, Marina (Melissa Vettore, da novela “Insensato Coração”) e Caio (Matheus Restiffe). Na cumplicidade e na verdade das complexas relações entre os três está o alicerce em que o longa se sustenta.

O próprio Barcinski sentiu o fardo da carga emocional da produção. Para exorcizá-la, o diretor está dirigindo a série infantil “Que Monstro te Mordeu”, com supervisão artística de Cao Hamburguer. E seu próximo roteiro é um thriller de suspense ainda sem título. “Mas desta vez, não vai ter um acidente e eu não mato ninguém”, promete.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave