Como controlar a explosão

Com a estreia de “Entre Vales”, Ângelo Antônio se confirma como um dos melhores atores do cinema nacional

iG Minas Gerais | Daniel Olveira |

Camaleão. Para Barcinski, Ângelo é um “ator conhecido, mas que desaparece em seus papéis”
pedro paulo figueiredo / arquivo
Camaleão. Para Barcinski, Ângelo é um “ator conhecido, mas que desaparece em seus papéis”

Ângelo Antônio não hesita ao ser perguntado sobre sua cena favorita em “Entre Vales”, longa do diretor Philippe Barcinski que estreia em Belo Horizonte nesta quinta, dia 8. É aquela em que seu personagem Vicente, um empresário bem-sucedido e pai de família, recebe uma notícia que desintegrará sua identidade e o levará a viver num lixão como catador.

“É como conseguir controlar uma explosão. Se você não canalizar aquela emoção, ela não gera energia. Pensa em segurar um cavalo e deixar ele correr, saber virar na hora que precisa, ter o controle dessa disparada. Naquele momento, a gente teve esse controle”, ele compara.

Esse domínio da explosão talvez seja a melhor descrição do trabalho do ator, que completa 50 anos no mês que vem. Mineiro de Curvelo, Ângelo responde com frases esparsas, que questionam mais do que afirmam. Mas, no silêncio entre elas, ele consegue transmitir uma riqueza ebulindo em seu interior que não se encontra em milhões de palavras.

Ao mesmo tempo, o ator surpreende o público a cada novo filme, com arroubos emocionais de uma fisicalidade que ocupa a tela e não parece caber em sua figura mignon, quase franzina, e na voz calma e modulada. Para Barcinski, é isso que permite que Ângelo viva Vicente e Antônio, as duas personas diametralmente opostas do protagonista de “Entre Vales”, justapostas na montagem de um modo que intriga o público, criando um suspense que carrega o longa. “Ele é muito afetivo, muito doce e, ao mesmo tempo, tem uma explosão, um tônus. Tudo isso encaixou como uma luva”, afirma o diretor.

“Todos esses personagens estão dentro da gente. Eu brincava que um era Ângelo, e o outro o Antônio”, ri o ator. Essa dualidade entre a técnica da performance e a verdade do homem comum inerente à sua figura marcam Ângelo desde o início da carreira, quando ele foi para São Paulo atrás do trabalho de Antunes Filho no Centro de Pesquisa Teatral (CPT).

Lá, o mineiro assistiu à montagem de “Romeu e Julieta” e teve certeza de que era aquilo que queria fazer da vida. Depois de seis meses se preparando para entrar no novo elenco do espetáculo, porém, Antunes deslocou o ator para um projeto baseado na obra de Guimarães Rosa. “Na época, não entendi a mudança e acabei saindo para a Escola de Artes Dramáticas da USP”, lembra.

Ironicamente, 30 anos depois, um de seus próximos projetos no cinema deve ser uma adaptação de “Macbeth” pelo diretor Vinicius Coimbra (“A Hora e a Vez de Augusto Matraga”). E seu maior desejo não-realizado é fazer Guimarães no teatro ou na tela grande. O ator tem, inclusive, um roteiro adaptado por seu irmão, mestre e doutor no escritor mineiro. “Nasci em Curvelo, na entrada do sertão, então tem muitas referências ali. O médico que leva Miguilim para a cidade grande é baseado em um médico da minha mãe”, explica.

Paternidade. Além deles, Ângelo está comprometido com uma cinebiografia da família Schurmann, em que deve interpretar o patriarca David – que, por sua vez, dirigirá o longa. O papel será mais um pai em uma filmografia que vem sendo marcada por grandes figuras paternas, como o protagonista de “2 Filhos de Francisco”, e agora o Vicente de “Entre Vales”.

O diálogo e a cumplicidade naturais do personagem com o filho Caio (vivido pelo estreante Matheus Restiffe) são diferentes do filme de Breno Silveira, mas contêm a mesma espontaneidade que cativa o espectador. Sobre a relação que funciona como a espinha dorsal emocional do longa, o ator afirma, com uma humildade mineira, que ela é baseada no seu desejo de aprender com crianças, comparando à sua parceria recente com a pequena Mel Maia na novela “Joia Rara”.

“Gosto do jeito delas de lidar com o jogo, a facilidade de se concentrar na hora que precisa, mas sempre brincando, num estado de relaxamento. Com o passar do tempo, o ator vai ficando mais formal, e criança ensina muito a gente”, reflete. Extremamente crítico de seu trabalho, Ângelo confessa que sofre muito com um perfeccionismo que ele associa ao ego. “Quando eu melhorar como ser humano, vou ter menos esse rigor. Minha busca é chegar ao nível da criança. Tenho organicamente como preocupação primeira começar um projeto sempre como se estivesse trabalhando pela primeira vez”, revela.

A origem dessa busca quase patológica por perfeição, porém, pode estar escondida no que o ator conta ter sido sua maior surpresa ao filmar em um lixão. “Nada impressiona mais do que a alegria das pessoas que trabalham ali. Mais forte do que o cheiro, que a textura daqueles sacos, que os urubus na sua cabeça. A alegria da dignidade de estar sustentando sua família”, descreve. Nessa paixão pelo trabalho, Ângelo enxerga, conscientemente ou não, sua própria ética profissional e seu respeito pelo ofício, que o levam a buscar, a cada performance, o controle perfeito da explosão.

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