Gente que só estuda ajuda a encolher a população ativa

Em fevereiro e março, 159 mil pessoas migraram da desocupação para a inatividade

iG Minas Gerais | Pedro Grossi |

Cimar Azeredo, do IBGE, explica que famílias suprem a renda
IBGE/DIVULGAÇÃO
Cimar Azeredo, do IBGE, explica que famílias suprem a renda

Formado em direito há seis anos, João Paulo de Morais, 29, nunca se sentiu muito à vontade dentro de um escritório de advocacia. Sua vocação, segundo ele, era ser juiz ou promotor. Entre a realidade e o sonho, no entanto, havia o desafio de superar outros 3.000 concorrentes disputando a mesma vaga. A decisão, então, foi a de abandonar o emprego no escritório para se dedicar aos estudos. O apoio financeiro veio dos pais, que resolveram arcar com as despesas do filho até que ele seja aprovado no concurso do Ministério Público.

A situação de João Paulo é cada vez mais comum no Brasil: jovens em idade produtiva, mas que, para fins estatísticos, estão na inatividade. Vale ressaltar que a metodologia usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE) e pela Fundação João Pinheiro para calcular os índices de desemprego considera pessoas desempregadas apenas aquelas que procuraram emprego. Jovens como João Paulo não entram no percentual de desempregados, mas sim no de inativos.

Isso é um dos fatores que ajudam a explicar os baixos índices de desemprego no Brasil, que, em março, foram de 5% – o menor registrado no mês de março em toda a história, segundo pesquisa mensal realizada pelo IBGE. No levantamento do instituto, um outro dado chama a atenção. Apenas entre os meses de fevereiro e março, 159 mil pessoas migraram das filas de desocupação para a inatividade. No geral, das 43,2 milhões de pessoas em idade ativa (PIA), 19 milhões (ou 43,9%) são de inativas – isso inclui tanto os incapacitados de trabalhar quanto aqueles que não procuram ou não querem um emprego formal no momento.

Assim, segundo o coordenador de Trabalho e Emprego do IBGE, Cimar Azeredo, a queda do desemprego em março com relação a fevereiro “não se deu em aumento de postos de trabalho, mas aconteceu em função do aumento de população inativa”.

Só estudando. É o caso de Rafaella Lemos Alves, 26. Ela se formou em nutrição e logo se decidiu pela carreira acadêmica. “Percebi que minha profissão é muito mal remunerada. A área que eu queria, de saúde pública, só contratava por meio de concurso e também não era valorizada”. Já formada, ela foi bancada pelos pais por seis meses, até conseguir uma bolsa no mestrado. “A bolsa, de R$ 1.200, era maior que a remuneração de alguns colegas que conseguiram emprego”, conta. Já finalizado o mestrado, Rafaella agora faz residência no Programa de Saúde da Família (PSF), onde recebe bolsa de R$ 2.970. “Quando acabar, volto as atenções para o doutorado”, conta.

Para o coordenador do IBGE, Cimar Azeredo, o aumento da renda do trabalhador ajuda a explicar o crescimento da população inativa, já que a renda familiar é suficiente para suprir a falta de renda de um dos membros do grupo.

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