Filosofia de esgoto ou conversa para boi dormir

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Como os humanos, todas as baratas são tontas, mas algumas são mais tontas do que outras
Intervenção sobre imagem de barata bonitona
Como os humanos, todas as baratas são tontas, mas algumas são mais tontas do que outras

Logo depois do café da manhã, duas baratas se encontraram em cima da mesa. Não que dona Francisca fosse desmazelada, pois a culpa era do Joãozinho. Tendo de levar o garoto até a esquina e entregá-lo na van do colégio, nada mais natural que a toalha ficasse suja, os talheres idem e migalhas polvilhassem a mesa. O maridão? Nem aí. Atrasado como sempre, olhava-se no espelho do quarto, apreciando a mais bela paisagem do mundo. “Delícia”, pensaram em conjunto as baratas. “Isso mesmo que seu sapo queria”. QUEM SOMOS Uma das baratas, que se chamava Hermengarda, era branquela e vivia no esgoto, logo embaixo da cozinha. Subia de manhã, fazia seu supermercado e passava o dia em afazeres domésticos, entre deliciosos odores subterrâneos, cuidando da prole. A outra barata, Josefina, era peluda, morenaça, solteira, e voava que nem avião. Pela facilidade de locomoção era, digamos, cosmopolita: dia aqui, dia ali, a vida voava com o vento. Nem por isso era dada a luxos, gostando de toda iguaria, que saboreava com prazer. PREÂMBULO Com a língua comprida e fina, preparava-se Hermengarda para lamber certa substância incolor e brilhante, quando Josefina a interrompeu: – Isso não, Garda! Essa droga aí é ciclamato, proibido nos Estados Unidos. Dizem que dá câncer. Aqui todo mundo usa, mas não aconselho. Por que não prova açúcar? – Não sabia, Jos. Sempre lambi um pouco e nunca me fez mal. Quem sabe não é boato espalhado pelos produtores de açúcar? – Pode ser, amiga. Mas seguro morreu de velho. Faça sua parte que Deus te ajudará. Macaco velho não bota mão em cumbuca. A cavalo dado não se olham... – Mas que falatório, criatura! Por acaso engoliu um dicionário de ditados? Vamos comer que é melhor. DITO E NÃO FEITO Hermengarda gostava de pão integral com suco de laranja. Pegou então algumas migalhas, subiu num copo quase vazio e esfregou o pão no restinho amarelado. – Deixa disso, minha filha! Esse suco é artificial, tem nitrito. Lá nos Estados Unidos, onde é proibido, dizem que dá câncer. Prove esse leite desnatado. – Mas você está louca? Leite que dura seis meses? Não bebo essa porcaria de jeito nenhum. No Japão é que gostam, mas morre todo mundo de câncer no estômago. – Também já ouvi falar. Mas, veja ali que delícia: presunto defumado! Você come do bom e do melhor, quem diria. Quem sabe fico aqui algum tempo? – Presunto defumado, jamais! E câncer no esôfago? Dizem que a gauchada morre toda de câncer no esôfago. E olha que não é cigarro, não. Churrasco, minha filha, é de tanto engolir fumaça de churrasco. ASSUNTO NÃO FALTA Foi então que uma olhou para a outra e começaram a rir. Não é que estavam parecendo duas velhas hipocondríacas treinando para morrer de fome? Esqueceram os riscos e caíram na fartura. O queijo estava ótimo, a manteiga cheirosa, o pão francês torradinho e crocante. Provaram o presunto, o suco, o leite, a geleia... Saciadas, retomaram o papo. Enquanto Hermengarda enchia a sacola com as sobras para o almoço da molecada, Josefina palitava os dentes. – Semana passada, minha filha, sofri tanta tortura psicológica, nem te conto. – Conta, conta – apressou-se Garda a dizer, fazendo uma pausa na coleta. – Que foi que te aconteceu? – Pois não é que o dentista cismou de fazer implante total na minha boca? Disse que meus dentes estavam nojentos de podres. Que eu corria sérios riscos. Que, se deixasse como estava, ia sofrer o diabo. Até com septicemia fui ameaçada! Mas recusei firme.

– Sei como é isso. Se te contar o que passei no gastroenterologista... SANGUE DE BARATA Mas é claro que contou. E foi o seguinte. Sofrendo de desconforto estomacal, resolveu Hermengarda consultar um especialista. Com o plano de saúde em dia, escolheu, marcou e foi, tremendo de ansiedade. Chegou, esperou hora e meia, entrou, recebeu um sorriso. De dedos cruzados no queijo barbudo, perguntou o doutor: – E então, minha senhora, de que se queixa? Mal Hermengarda abriu a boca foi interrompida pelo médico: – Está bem. Mas preciso de exames para o diagnóstico. E anotou: exame de sangue completo, fezes, urina, ultrassonografia do abdome superior, endoscopia digestiva alta... Entregou os formulários, despediu-se, e nem viu a barata abrir a porta. BARATA CURIOSA Josefina deu um voo curto, para verificar se não tinha comido demais. Não tinha. As asas suportaram o corpo, que deslizou com leveza. Satisfeita, indagou: – E aí, fez os exames? – Fiz, minha filha. Fiz todos, sem soltar um ai. Voltei ao médico e ele não achou quase nada. Enfiou os dedos no queixo peludo, me olhou desapontado e disse que eu tinha apenas uma periendogastrite crônica. Coisa à toa. Podia ir tranquila pra casa. BARATAS TONTAS Vida de barata é desse jeito, um problema atrás do outro. Não se pode comer isso, porque dá câncer. Nem aquilo, porque eleva a pressão. E aquiloutro, então? Nem pensar: AVC mandou lembrança, enfarte está batendo na porta. Mesmo assim, as duas riram e se abraçaram em despedida. Hermengarda foi cuidar da prole no esgoto. Josefina bateu as asas rumo ao brilhante céu sem nuvens.

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