Para historiadora, obra do artista ainda merece estudo

iG Minas Gerais |

Pesquisadora do legado de Antônio Francisco Lisboa, desde a década de1960,Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, autora do livro “Aleijadinho: Passos e Profetas”, observa que embora o mineiro seja o artista colonial mais estudado do país, ainda é necessário analisar outros aspectos de suas obras.

Convidada para participar da Semana Nacional de Museus, em Congonhas, com abertura marcada para acontecer no dia 11, a historiadora destaca, por exemplo, as capelas dos Passos da Paixão de Cristo. Criadas para abrigar as esculturas de Aleijadinho e seus aulixilares a partir de 1808, elas contém elementos que ainda carecerem de melhor observação, segundo Myriam.

“Para fazer o estudo das capelas dos Passos da Paixão de Cristo de Congonhas, eu visitei outras semelhantes encontradas no norte Portugal, de onde vem a ideia. Lá, quando essas capelas são feitas, as esculturas são montadas de acordo com o cenário ali representado junto com o piso. Em Congonhas nem todos os pisos, no entanto, chegaram a ser construídos. Apenas na primeira, ele parece finalizado”, pontua Myriam.

“Se olharmos para a quinta capela, em que se mostra a subida de Cristo para o calvário, ele está sobre um suporte ascendente. Mais um passo ali, é como se ele despencasse. Esse estudo algum dia ainda vai ter que ser feito”, ressalta a estudiosa.

Polêmicas. Em relação a isso, ela explica que resistências são possíveis de serem encontradas, pois tudo que está ligado a Aleijadinho volta e meia esbarra em muitas polêmicas. Envolvida em duas das três restaurações já realizadas nos Passos das Paixão de Cristo, pertencentes ao Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Myriam recorda a recuperação da pintura das mesmas capelas.

De acordo com a historiadora, a ação só foi promovida a partir de 2003. Até aquele ano, o cenário original estava coberto por um tinta branca. “Desde a primeira restauração, já tinham sido identificadas diversas camadas de tintas sobre as esculturas que foram entalhadas por Aleijadinho, mas pintadas por outros artistas sob a encomenda dele, como Manuel da Costa Ataíde. Naquele momento, se começou a buscar a pintura original das peças, mas ficou acertado que o fundo deveria continuar neutro para não desviar a atenção principal para as obras”, recorda Myriam.

Ela afirma, porém, que o cenário na parede “cumpre um papel muito importante porque as capelas são criadas como uma encenação dramática”. “Rever esse conceito mais recentemente não foi uma decisão fácil. Mas consideramos tão acertada que hoje quase ninguém comenta tanto quanto antes. A mudança já foi assimilada”, diz.

Monumental. Ao refletir sobre o motivo que coloca o conjunto do Santuário de Congonhas como a obra-prima de Aleijadinho, Myriam ressalta o caráter monumental daqueles trabalhos. “Elas são concebidas durante o apogeu de sua carreira artística que está relacionada à terceira fase. Abarca 64 esculturas e, ainda que ele tenha contado com a ajuda de auxiliares, espanta que ele tenha feita tudo aquilo em três anos e meio”, diz a pesquisadora.

Ela também lembra que o escultor e arquiteto teve reconhecimento em vida. “Em um texto de 1790, um vereador de Mariana diz inclusive que ele é um artista superior a todos os outros de sua época. Tal documento é citado na biografia de Aleijadinho feita por Rodrigo José Ferreira Brêtas”, afirma.

Eleito por especialista como um dos primeiros artistas brasileiros a desenvolver um trabalho genuíno, Myriam reforça seu caráter singular. “Ele criou uma obra única, com estilo próprio a partir das influências europeias. Já escrevi, inclusive, que ele pode ter se inspirado em gravuras alemãs, pois algumas têm grandes semelhantes com as criações dele”. (CAS)

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