Futebol chinês tenta repetir fórmula japonesa para evoluir

Em 20 anos, Japão passou de ridicularizado para exportador de talentos para o futebol europeu; agora, China tenta repetir fórmula

iG Minas Gerais | GABRIEL PAZINI* |

Montillo foi uma das contratações do futebol chinês nesta temporada
Reprodução/Facebook
Montillo foi uma das contratações do futebol chinês nesta temporada

Muita gente não entende como a China, país com mais de 1,35 bilhão de habitantes, não consegue formar uma seleção de futebol forte. A explicação passa muito pelo amadorismo, falta de investimento e popularidade do esporte no país, mas isso tem mudado nos últimos anos.

Tentando repetir a fórmula de sucesso do futebol japonês, a China profissionalizou sua liga, a transformando na Chinese Super League (CSL). A contratação de jogadores estrangeiros e o investimento pesado no campeonato, estrutura dos clubes e popularização do esporte é a marca do futebol chinês nos últimos anos. E como todo trabalho de longo prazo, os resultados ainda estão começando a aparecer, mas a tendência é que o esporte cresça cada vez mais no país asiático.

 

Escola japonesa

Até investir para valer no futebol, o Japão não tinha grandes nomes no esporte. É verdade que Kunishige Kamamoto, artilheiro das Olimpíadas de 1968, quando o Japão conquistou a medalha de bronze, e Yasuhiko Okudera, que fez sucesso no futebol alemão nos anos 70 e 80, se tornando o primeiro japonês campeão do Campeonato Alemão, são nomes que merecem destaque, mas o país não se destacava e era até ridicularizado internacionalmente. O futebol era amador e os times, majoritariamente, eram de empresas. No entanto, o jogo se popularizou muito no Japão com a explosão da J-League, a profissionalização em 1993, o investimento pesado na liga, na estrutura dos clubes, na popularização do esporte e nas categorias de base. Atualmente, o futebol rivaliza com o beisebol no posto de esporte mais popular do Japão.

Para isso, o país apostou na contratação de craques como Zico, Stojkovic, Schillaci e várias estrelas mundiais, o que fez a mídia nipônica e a população se interessarem mais pelo esporte. Todo esse cenário rendeu em uma rápida revelação de talentosos jogadores nipônicos como Hidetoshi Nakata, Shunsuke Nakamura, Hiroshi Nanami, Shinji Ono, Junichi Inamoto e tantos outros que surgiram e fizeram sucesso na Europa. Isso sem falar em Kazuyoshi Miura, o Kazu, que fez sucesso inclusive no Brasil, se destacando com as camisas de Santos e Coritiba.

A seleção japonesa também evoluiu: conquistou quatro vezes a Copa da Ásia, se tornou a mais forte do continente e hoje aparece em várias listas como candidata a surpreender na Copa do Mundo, pela geração de jogadores talentosos e futebol vistoso que tem apresentado, com toques rápidos, posse de bola e qualidade técnica. Surgiu, inclusive, o engraçado e exagerado apelido de 'Barcelona da Ásia'.

Outra evolução perceptível é o Campeonato Japonês. A J-League é a liga mais forte da Ásia e o Japão, com um excelente trabalho nas categorias de base, tem revelado muitos jogadores de qualidade. Vários atletas são exportados para o futebol europeu e têm feito sucesso no Velho Continente. Os mais famosos são Shinji Kagawa (Manchester United), Keisuke Honda (Milan) e Yuto Nagatomo (Inter de Milão), mas nomes como Hiroshi Kiyotake, Takashi Inui e Eiji Kawashima também fazem sucesso nos gramados europeus.

 

Fórmula de sucesso

Com essa rápida evolução do futebol nipônico em apenas 20 anos, a China tenta repetir a fórmula, mas tem tido dificuldades em levar jogadores de nome para o país. Até agora, apenas Didier Drogba e Nicolas Anelka aceitaram o desafio. Outros jogadores conhecidos como Darío Conca e Lucas Barrios também se arriscaram no futebol chinês, mas não são estrelas mundiais. Além disso, o futebol ainda não emplacou por lá. Apenas o Guangzhou Evergrande, time de Muriqui, atual campeão asiático, tricampeão nacional e líder da atual edição da CSL, tem uma boa média de público, que fica em torno de 45 mil pessoas/jogo. A maior parte dos clubes tem uma média inferior ou pouco superior a 10 mil pessoas/jogo.

A dificuldade foi refletida nesta temporada. A grande contratação do Campeonato Chinês foi Alessandro Diamanti, reserva da seleção italiana, que se juntou ao Guangzhou, enquanto Diego Forlán, camisa 10 do Uruguai e craque da última Copa foi jogar pelo Cerezo Osaka no Campeonato Japonês.

No entanto, os jogadores que estão na China acreditam na evolução do futebol no país e dizem que o esporte já está evoluindo. "Quando cheguei aqui, o futebol era um pouco amador. Depois, com a evolução do Guangzhou, os outros clubes resolveram ir pelo mesmo caminho e o esporte se desenvolveu por todo o país. A expectativa de todos é a melhor possível", afirma Muriqui ao Super FC.

"A tendência é os chineses irem cada vez mais aos estádios assistirem os jogos. A final da Liga dos Campeões da Ásia do ano passado foi uma movimentação do país inteiro. Nas ruas, nos jornais e em todos os lugares vimos pessoas falando do nosso jogo", conclui.

>> Reveja entrevista exclusiva de Muriqui ao Super FC: http://www.otempo.com.br/superfc/ex-atl%C3%A9tico-muriqui-se-diz-feliz-no-oriente-fala-em-volta-e-sonha-em-reencontrar-o-galo-no-mundial-1.706761

O excelente meia argentino Walter Montillo, contratado pelo Shandong Luneng nesta temporada, também acredita numa evolução no cenário futebolístico do país. "Os clubes estão investindo e trazendo grandes jogadores, com nome e experiência no futebol internacional. Acredito que, com essa mistura, os próprios jogadores chineses vão evoluir", analisa.

 

Curiosidades

> Apesar de não ser uma potência no futebol, a forma mais antiga de se disputar o esporte, reconhecido pela Fifa, aconteceu na China. O "Cuju" era jogado nos séculos II e III d.C. e consistia em chutar uma bola até que ela entrasse dentro de uma rede. O uso de mãos não era permitido.

> Os 16 times da Chinese Super League são todos do Leste, região mais desenvolvida do país. O Oeste da China não tem equipes na primeira divisão.

> A seleção chinesa nunca foi campeã continental. O máximo foram dois vice-campeonatos: 1984 e 2004, o último em casa, quando foi derrotada na final justamente para o Japão. Além disso, a China só disputou a Copa do Mundo uma vez, em 2002, e sequer passou da fase de grupos.

> R$ 1,5 milhão é o salário mensal de Cuca no Shandong Luneng

> R$ 77 milhões gastou o Shandong Luneng para montar o time desta temporada

> R$ 61 milhões é o valor de mercado do elenco do Guangzhou Evergrande

 

Dinheiro não é tudo

Quando um jogador aceita o desafio de jogar na China ou no Oriente Médio, logo se imagina que a decisão foi tomada apenas pelo fator financeiro. No entanto, os milhões na conta bancária nem sempre são o principal.

Nesta temporada, o Shandong Luneng, inspirado no sucesso do Guangzhou, gastou R$ 77 milhões para montar seu elenco e apostou em sul-americanos. Montillo foi uma das contratações do clube, que também levou Cuca, Aloísio e Vagner Love (em 2013). Mas o argentino conta ao Super FC que o dinheiro não foi o principal motivo para levá-lo ao futebol chinês.

“A proposta financeira é importante, mas não fundamental. Tiveram outros fatores muito importantes. As condições de trabalho e a força do Cuca para que eu me transferisse, por exemplo. Tenho ele como um pai dentro do futebol”, diz.

Já Muriqui, que está no Guangzhou Evergrande desde 2010 e faz muito sucesso no país, admite que o dinheiro foi fundamental para levá-lo ao futebol chinês, mas afirma que hoje é feliz do outro lado do mundo e que se surpreendeu com a estrutura.

"Eu sempre quis jogar fora do Brasil e quando surgiu a proposta do futebol chinês no primeiro momento eu não queria ir. Depois conversei com a minha família e resolvi que seria vantajoso aceitar pelo lado financeiro. Eu não tinha dimensão do projeto que o clube estava montando e devo admitir que arrisquei quando aceitei a proposta. Hoje estou muito feliz aqui na China e trabalho em um clube que me oferece uma estrutura de dar inveja a muitos jogadores", conta.

Elkeson, que é companheiro de Muriqui no Guangzhou e está na China desde 2013, endossa o coro. “Aceitei a proposta do futebol chinês assim que soube que o treinador da equipe era o Marcelo Lippi (tetracampeão mundial com a Itália em 2006, técnico muito experiente e multicampeão no futebol europeu). Tinha certeza que iria aprender muito com ele e isso vem acontecendo, mas é claro que a proposta financeira também pesou”.

E as contratações do Shandong já estão dando resultado. Se por um lado, o time foi eliminado na fase de grupos da Liga dos Campeões da Ásia, por outro, a equipe é vice-líder do Campeonato Chinês, apenas dois pontos atrás do Guangzhou Evergrande, que sonha com o tetracampeonato.

*com supervisão de Leandro Cabido

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