Espécimes diferentes

iG Minas Gerais |

No último fim de semana, eu e uns amigos nos sentamos em uma pizzaria e nos alimentamos não só de pizzas, mas também de conversas diversas, dos mais variados assuntos.

De repente, o papo derivou-se para o problema da violência crescente nas grandes cidades brasileiras. Alguém fez a seguinte e interessante colocação: “Um assaltante que está disposto a matar não sente que está assassinando um semelhante. Para quem cresceu vendo o outro ter tudo do bom e do melhor enquanto passava fome, o indivíduo-alvo nada mais é do que um ser de outra espécie, mais favorecida, a quem deve exterminar para que sobre um pouco para ele”.

Eu nunca havia pensado na criminalidade por esse enfoque. Sempre considerei que assaltos e assassinatos acontecessem devido à disparidade de classes, uma espécie de vingança de quem tem menos para quem tem mais, uma coisa assim meio Robin Hood.

No mesmo minuto, minha cabeça encheu-se de minhocas. Não no sentido figurado: eu realmente lembrei que já matei muita minhoca, barata, pernilongo, formiga e vários outros seres de outras espécies (considerados por mim) ameaçadores.

Algumas vezes, inclusive, tive uma certa dor na consciência ao fazer isso. Sempre fico imaginando o choro da barata sendo pisada (acho que isso é culpa da minha mãe que me fez ouvir muito, quando criança, aquela história da Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha).

Na Wikipédia, o significado é claro: “Os insetos pertencem à classe Insecta e compõem o maior e mais largamente distribuído grupo de animais do filo Arthropoda e, consequentemente, dentre todos os animais”. Ou seja, apesar de por muitas vezes eles nos incomodarem a ponto de despertarem com toda força o nosso instinto assassino, os insetos são animais, são seres-vivos como eu e você. E mesmo assim por inúmeras ocasiões os matamos sem a menor pena.

A verdade é que quanto menos semelhança sentimos com um ser, maior a facilidade em exterminá-lo. Atropelar um cachorro? Provoco um acidente na rua, mas isso não acontece! Esmagar uma formiga enxerida que entrou no meu brigadeiro? Sem pensar duas vezes...

Realmente acho que a teoria do meu amigo tem muita razão. A solução do problema, nesse caso, não seria castigar e prender os criminosos para fazer com que entendam que matar e roubar é errado. A saída seria incentivar a convivência entre “espécies” diferentes para que se vejam menos como estranhos e mais como iguais. Sei que é completamente utópica essa ideia, mas realmente enxergar a causa de um problema ajuda a entendê-lo melhor.

Da minha parte, o que posso fazer é tentar olhar com mais simpatia para os pernilongos, aturar uma ou duas picadas, mas nada além disso. Conviver no mesmo espaço que baratas é ainda mais utópico do que o sonho de uma sociedade igualitária. Uma das duas partes tem que ser exterminada.

Nesse caso, eu – maior e mais forte – sempre venço. Triste é pensar que no nosso mundo atual também existem maiores e mais fortes. Que nos deixam sem defesa. Que matam por instinto, assim como eu faço com as formigas que nem imaginam que me ofendem ao tentar pegar um farelinho do meu bolo de chocolate.

 

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