O mal-estar nos muros

Nova onda de energia criativa transforma a capital grega numa meca contemporânea da arte de rua e de protesto

iG Minas Gerais | Liz Alderman The New York Times |

ANGELOS TZORTZINIS
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O rapaz escalou um andaime de nove metros num prédio no centro de Atenas e mergulhou o pincel numa bandeja de tinta cinza. Com movimentos rápidos do punho, ele esboçou uma imagem assombrosa: um neném com dois rostos, olhando simultaneamente para um abismo e para o céu, com os olhos vagos procurando um futuro que não estava ali.ATENAS, Grécia

De autoria de um artista grego conhecido como iNO, o mural era delicado, estilizado e inteligente, detendo os transeuntes. De forma fundamental, no entanto, era uma mensagem bruta de protesto, a mais recente numa onda de obras de arte com consciência política e social a se espalhar pelos muros de Atenas.

“As pessoas na Grécia estão sob uma pressão crescente”, afirmou iNO, homem de fala mansa que busca chamar atenção para a situação social neste país atingido pela crise, onde até mesmo os mais jovens da sociedade enfrentam uma percepção de futuro lúgubre. Em resultado, “eles sentem a necessidade de agir, de resistir e de se expressar”.

Como em outras cidades do mundo, o grafite em Atenas floresce há décadas, mas num país onde a adversidade das guerras e da ditadura militar modelaram a psique nacional, os cinco anos de colapso econômico geraram uma nova onda de energia criativa que transformou a capital grega numa meca contemporânea da arte de rua na Europa.

Denunciado como vandalismo de bandidos por alguns observadores, mas saudado por outros como artístico e inovador, assinaturas, letras com formato de bolhas e pintura estilizada há tempos recobrem os muros da cidade, os trens, carros, bancos, quiosques e prédios caindo aos pedaços – até mesmo algumas ruínas da Acrópole. Porém, nos últimos anos, a angústia desta época tem cada vez mais se transformado em trabalho elaborado com estêncil e diversos murais coloridos encontrados por toda a cidade, obra de bandos de jovens sub ou desempregados que têm tempo de sobra para exprimir seu mal-estar.

“Se quiser aprender sobre uma cidade, olhe suas paredes”, garantiu iNO, que até pouco tempo atrás usava latas de tinta em spray em trens, mas passou a utilizar os prédios como tela para murais com mensagem social. “Dê uma volta pelo centro de Atenas e você vai entender”.

A polícia ateniense raramente prende grafiteiros, a menos que sejam suspeitos de pertencer a grupos anarquistas ou ao partido de extrema direita Aurora Dourada. O bebê de duas caras foi pintado por iNO numa manhã recente sem interferência. Mesmo assim, muitos artistas trabalham discretamente à noite, usando máscaras e se recusando a dar o nome por temer se envolver em problemas com as autoridades. As mensagens costumam ser rebeldes, à beira do revolucionário.

Há pouco tempo, sob o manto das trevas, um dentista grego, cujo consultório foi devastado pela crise, botou a mão numa sacola, pegou uma lata de spray e um estêncil cortado por ele nas horas de folga, usando a broca projetada para perfurar dentes. Parando perto de um muro caindo aos pedaços, ele pintou rapidamente uma imagem geralmente não associada à sua profissão: um mascarado lançando um coquetel molotov.

“A classe média e a classe operária foram arruinadas”, afirmou o dentista, que atende pelo pseudônimo Mapet, se recusando a revelar o nome verdadeiro. “Meu objetivo é fazer contrapropaganda social e política, e fazer as pessoas pensarem”.

No bairro batalhador de Exarcheia, reduto de anarquistas, mais de uma década de assinaturas e grafites influenciaram os estênceis de Mapet e a obra de outros artistas de rua, que pintam imagens antifascistas violentas, ainda que graciosas, caricaturas grotescas de banqueiros e políticos, e um trabalho intricado com adesivos e cartazes pelas ruas.

Esse trabalho se espalhou para os bairros operários vizinhos de Metaxourgeio e Kerameikos, onde um número crescente de “artistas da moda”, desprezados pelos grafiteiros de carteirinha, também andaram deixando sua marca. Muitos dos novatos estudaram na Escola de Belas Artes de Atenas, que oferece cursos de pintura das ruas, gerando novos trabalhos instigantes abordando o racismo, o capitalismo e a exploração.

 

 

 

 

 

 

 

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