Fora do ‘mundinho’

iG Minas Gerais |

De lá, do meu mundinho, eu não vejo nada. Só quero chegar ao destino. A cidade perde a cor, e o único foco é chegar ao trabalho. Mas não saio do lugar. É horário de pico. Estou ali, presa entre carros, ônibus, motos e mais carros. Impotência absoluta. Solitária em meio a tantas outras pessoas, também sós em seus veículos. Os famosos “presos no trânsito”. Na volta, tudo igual. A vida ali, passando pela janela. Não sei vocês, mas a mim, o trânsito sufoca, desgasta, irrita. Se chover, então, esqueça. Lamente os atrasos, os compromissos perdidos. Aceite. BH não é São Paulo, mas está quase lá. E olha que o carro era meu sonho quando andava de ônibus. Outros tempos. Tempo em que os ônibus andavam. Hoje é diferente. Tudo para. Mínguam os encontros e, sem eles, se vão as histórias. Eu as reencontrei no metrô. Uma fonte inesgotável delas. Entram e saem milhares de histórias, o tempo todo. De lá, vi – com um certo prazer, eu confesso – os carros enfileirados na Via Expressa. Pelo menos eu seguia, mesmo devagar. Nosso metrô é lento, lotado e não vai a todos os lugares em que precisa chegar. Ainda assim, algumas vezes, escolho estar lá. No começo era só pelo trânsito. Mas, agora, vou também por elas: as histórias. Não teria outra oportunidade de conhecer o Cristiano. Vinte e quatro anos, caixa lotada de balas e chicletes e uma vontade danada de vender. Corajoso, solta a voz para apresentar o produto. Entrou na estação Central, desceu na Vila Oeste após 12 vendas. Eu comprei, é claro. Fui de chicletes e puxei conversa. O Cristiano tem mulher e filha pequena. Trabalha oito horas por dia. Tira R$ 900 por mês. De trem em trem, se esquiva da segurança. Ele tem andado preocupado. O motivo é a concorrência: pedintes, como o Raul. De quem, confesso, não gostei muito. Doei R$ 1. Conferiu e nem agradeceu. Recolheu os papéis com pedido de ajuda e saiu reclamando. Só cinco doações. Não mancou para descer, o contrário de quando entrou. Meu pensamento viaja no metrô. Olho os rostos de cansaço. Imagino de onde vem a mulher com tantas sacolas e como foi o dia dela. Desconfio da maldade por trás do rosto do homem do semblante carrancudo. Nesta semana, um rapaz segurava a barra de ferro com um pano para não tocá-la. Quando surgiu uma vaga, colocou uma folha de papel no assento. Quis saber das manias. Enquanto ainda ensaiava para perguntar, passaram duas estações e ele desceu, aguçando minha curiosidade. Tem quem lê o próprio jornal e quem cresce o olho na leitura do vizinho. O fone de ouvido pode ser um refúgio para o silêncio. Mesmo sem nos conhecermos, nos mostramos. Nas conversas no celular ou nas paralelas. Não pude dizer na hora, mas quero alertar a Carolina (estudante do Cefet, que embarcou na estação Horto, às nove e pouco de quarta): deixe esse tal de João Gabriel pra lá. Ele não gosta de você. A amiga loirinha de olhos claros, bem bonita, aliás, ficou só ouvindo as barbaridades que o garoto fez. Era a única que podia interferir, mas nem aconselhou. Outro dia, encontrei a dona Inês. Toda arrumadinha. Não perguntei a idade. Mas a cabeça branca e as marcas no rosto diziam que já passou dos 65. Ofereci meu lugar. Ela agradeceu. Minutos depois, insisti. Sentou-se. Depois, confessou que esperava a oferta do jovem ao meu lado: “Hoje eles fingem não me ver ou fingem dormir. Também vão envelhecer um dia, filha. Espero que não adoeçam o corpo, pois muitos cérebros já estão doentes”. Sábias palavras de dona Inês que me disse seu nome, perguntou o meu e ainda desejou-me um dia feliz. Tem gente que quer falar, outros buscam só o silêncio. Ainda há quem goste de olhar. Já eu, vou sempre procurar histórias. Texto publicado originalmente em 1.11.2013

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