Cinema também bebe da fonte criada por Freud

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Fassbender e Mortensen em uma das cenas de “Um Método Perigoso”
Imagem Filmes / Divulgação
Fassbender e Mortensen em uma das cenas de “Um Método Perigoso”

Muito tempo antes das séries “Psi”, exibida pelo canal HBO, e “Sessão de Terapia”, do GNT, estrearem, a psicanálise já era explorada como instrumento pelo cinema, seja como modelo a ser retratado seja como base para construir a narrativa.  

Uma produção recente que ilustra ambas situações é “Um Método Perigoso” (2012), dirigido por David Cronenberg (“Cosmópolis”). A trama mostra o surgimento da teoria sob a perspectiva da relação entre Carl Jung (Michael Fassbender) e Sigmund Freud (Viggo Mortensen). Além disso, examina a polêmica relação dos estudiosos com a paciente Sabina Spielrein (Keira Knightley).

“O impacto da psicanálise nas artes como um todo vem de sua abrangência. Ela interage com outras áreas humanas, como linguística e antropologia”, afirma o doutor e professor de psicanálise da PUC Hélio Miranda Júnior.

A relação entre psicanálise e cinema se estreitou tanto que ganhou um curso só sobre esse diálogo em Belo Horizonte. Coordenado pela psicanalista Nicole Lagazzi, o curso chega à sua terceira edição neste ano, tem a duração de um semestre e conta tanto com tutores da área psicanalítica quanto da de cinema.

Entre os conceitos trabalhados no curso, estão as formas de decifrar uma obra cinematográfica utilizando de conceitos psicanalíticos. “A psicanálise em si não tem como ser retratada. Mas eu posso ler as obras através de conceitos psicanalíticos. Em ‘Quando o Coração Fala’ (1945), de Hitchcock, ele discute conceitos e situações relacionadas à psicanálise de forma muito didática”, comenta Nicole.

Nicole recomenda o documentário “Estamira”, uma produção brasileira de 2006, dirigida por Marcos Prado (produtor dos filmes que compõem a saga “Tropa de Elite”). A produção mostra a vida de uma mulher de 63 anos, que sofre de distúrbios mentais e que vive num aterro sanitário há duas décadas. “É um filme muito visto para se discutir a psicose porque a protagonista delira e escuta vozes”, comenta.

Um filme indicado por Júnior é “Freud Além da Alma” (1962), do diretor John Huston. Nele, o Pai da Psicanálise trata uma paciente histérica que não bebe água e tem o mesmo pesadelo todas as noites. “Foi um filme escrito originalmente por (Jean-Paul) Sartre, mas depois de modificações dos produtores no roteiro, ele resolveu tirar o nome do projeto”, afirma.

Limite. Mesmo prolíferos, os filmes que, de alguma forma, abordam a psicanálise, segundo opinião da mestranda em psicanálise clínica da USP Lívia Santiago, têm suas limitações. “A linguagem do cinema não dá conta de traduzir os conceitos psicanalíticos. Então o que a gente vê são muitos personagens na tela tentando mostrar o raciocínio que se passa dentro deles, por isso fica muito seco. Assim o que temos são diálogos quase professorais”, comenta.

A profissional da área lacaniana Bianca Coutinho Dias é descrente com relação à eficácia de obras cinematográficas em retratar aspectos da teoria. “O que mais existe é filme que aborda a psicanálise de maneira leviana e equivocada, imprimindo- lhe clichês e com discurso do lugar-comum. Isso causa uma espécie de ‘síndrome de detetive’ nas pessoas, que começam a querer desvendar a origem dos próprios traumas e de suas questões a partir do outro, na televisão, ou seja, de maneira imaginária”, afirma.

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