Cada um no seu divã

Depois do sucesso de “Sessão de Terapia”, surge “Psi”, outra série que tem o processo terapêutico como tema

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Valentina, amiga Carlo e também terapeuta, na cena em que começa o tratamento da Janaína (Camila Leccioli), namorada do enteado do protagonista que se automutila.
hbo / divulgação
Valentina, amiga Carlo e também terapeuta, na cena em que começa o tratamento da Janaína (Camila Leccioli), namorada do enteado do protagonista que se automutila.

Em março deste ano o canal pago HBO colocou no ar sua mais recente produção brasileira, “Psi”. Composta por 13 episódios, com alguns inéditos ainda por vir, a série mostra a rotina do profissional Carlo Antonini (Emilio Mello) e seus dramas pessoais.

Mas é o “título-prefixo” que melhor explica a concepção tanto da série quanto do protagonista, inspirado nas obras “O Conto do Amor” e “A Mulher de Vermelho e Branco”, do psicanalista Contardo Calligaris, que também assina o roteiro da série. A sigla integra as palavras psiquiatra, psicólogo e psicanalista. “Há muito no seriado que é psiquiatria clássica, etnopsiquiatria, psicologia social, psicologia cognitiva e comportamental, sem esquecer da psicologia analítica”, diz Calligaris. Porém, é no campo clínico criado por Sigmund Freud (1856-1939) que o protagonista mais se encaixa. “Carlo vê o mundo, principalmente – mas não unicamente, longe disso –, pelo prisma da psicanálise e da psicopatologia clínica”, afirma o roteirista. Situação similar acontece com “Sessão de Terapia”, exibida pelo GNT, que retrata, como a série israelense em que foi inspirada, “Be Tipul”, o ambiente do consultório de um psicanalista. “Primeiro fizemos uma pesquisa sobre terapia e psicologia. A terapia do Theo (Zécarlos Machado, protagonista) tem uma abordagem psicanalítica, mas é uma terapia humanista. A pesquisa foi feita com terapeutas da mesma linha. Uma vez que foram decididos os pacientes e a curva dramática do Theo, o trabalho era verificar como paciente e terapeuta se comportavam naquelas situações e o que era crível de ser dito e de acontecer”, afirma a roteirista da série, Jacqueline Vargas. No site de “Sessão de Terapia”, no entanto, a sinopse sobre inicia-se com a frase “ambientada num consultório de psicanálise”. Quando se trata da rotina de ambiente de tratamento psicanalítico, porém, essas junções descritas pelos roteiristas só podem acontecer no mundo ficcional. Isso é o que acredita a psicanalista lacaniana Bianca Coutinho. “Não acho que seja possível mesclar correntes tão distintas dentro de uma abordagem clínica. Só mesmo um seriado para ‘chapar’ as coisas dessa maneira. A ética psicanalítica é diametralmente oposta a da psicologia cognitiva, por exemplo. Há coisas que são epistemológica e clinicamente inviáveis juntas. Podem funcionar muito bem, cada uma em sua abordagem. É preciso muito cuidado com esse discurso, porque ele pode esconder uma ausência de seriedade na direção clínica e uma falta de rigor que pode ter consequências sérias”, afirma. Para a mestranda em psicologia clínica da USP Livia Santiago, que acompanha as duas produções televisivas, a psicanálise é atrativa para TV porque “é um espaço onde o sujeito aparece”. “Um psicanalista te ouve do jeito que você quer falar dos seus desejos e questões. Há aí um apelo para a liberdade, para libertação do sujeito. Isso é muito atraente”, diz. A especialista em teoria psicanalítica pela UFMG e coordenadora do curso de Cinema e Psicanálise Nicole Lagazzi apresenta outro ponto de vista para o fascínio causado pela teoria. “A psicanálise trabalha essencialmente com o que é humano. Dentro disso, entram questões relacionadas aos fetiches, à sexualidade, além de toda dor e dificuldades. Isso invariavelmente chama atenção”, comenta. O lado positivo é que, independente do motivo, séries como “Psi”, “Sessão de Terapia” e as diversas obras cinematrográficas que exploram o campo clínico contribuem para a divulgação do meio de tratamento. “De maneira geral, é interessante popularizar a psicanálise, pois ela foi por muito tempo elitista”, diz Livia. Embora compartilhe a opinião sobre esse aspecto positivo, ao afirmar que as séries podem levar algumas pessoas a pensarem melhor sobre começar uma análise, Bianca ressalta que essa abertura surge de uma curiosidade, característica insuficiente para encarar um processo analítico. “Muitas vezes é preciso que seu mundo vacile ou desmorone. É preciso quebrar o espelho. O que essas séries podem causar, muitas vezes, é uma curiosidade que não sai desse registro”, diz. Ela ainda chama atenção para a possibilidade de acontecer a banalização do processo analítico em decorrência das séries mal fundamentadas. “Penso que essas séries estão mais próximas daquilo que usualmente se chama ‘terapia’ e distantes de uma ética psicanalítica, que é irreproduzível”, afirma. Calligaris, por seu lado, só tem a comemorar. “O retorno (de ‘Psi’) está sendo muito interessante e, às vezes, comovente – retorno de terapeutas, pacientes, parentes de pacientes e, simplesmente, dos que gostam de uma boa história”, diz ele.

Frases de Carlo O canal HBO exibe episódios inéditos aos domingos, às 21h, da série cujo protagonista tem a língua bastante afiada. “Freud dizia que a psicanálise deveria ser tão radical e precisa quanto a cirurgia”, diz Carlo.  – “E é?”, pergunta o amigo. – “Nem fodendo” – “Tá preocupado que a namoradinha de seu enteado seja um pouco biruta?”, pergunta Janaína. – “Eu ficaria bem preocu- pado se ela fosse comple- tamente normal.”, diz Carlo. 

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