Anonimato gregário

iG Minas Gerais |

Hélvio
undefined

Alcoólicos Anônimos, Neuróticos Anônimos, Narcóticos Anônimos, Codependentes Anônimos, Comedores Compulsivos Anônimos, Fumantes Anônimos, Devedores Anônimos, Jogadores Anônimos, Mulheres que Amam Demais Anônimas, Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, Emocionais Anônimos, Sobreviventes de Incesto Anônimos, Introvertidos Anônimos... Não é de se espantar que a ideia de as pessoas se juntarem para compartilhar problemas em comum e que potencializam a dificuldade de viver tenha crescido e se multiplicado desde a criação do AA, em 1935, por Bill W e Dr. Bob, nos Estados Unidos (e viva o Google!). Já sabemos todos que costumam dar certo. E pelo andar da carruagem desgovernada, motivos para o surgimento de novos clubes de quem procura ajuda sem precisar revelar o CPF brotam que nem chuchu. Não vai demorar e teremos por aí encontros regulares dos Conectados Descontrolados Anônimos, Viciados em Filtros do Instagram Anônimos, Contadores de Calorias Anônimos, Mulheres que Querem Qualquer Traste Anônimas, Ouvintes de Sertanejo Universitário Anônimos. Se bem que teria quem se sentisse inclinado a se inscrever em todos eles, talvez por não conhecer a natureza de seu fardo, talvez por não conhecer o fardo de sua natureza. Uma alternativa para solucionar esse tipo de dilema existencial seria categorizar os tormentos pela sua procedência. Os pecados capitais, por exemplo, dariam conta de um bocado deles e poderiam, até, promover a tão moderna e almejada convergência entre alguns desses grupos. Tudo bem que para ter o mesmo resultado e seriedade dos já tradicionais e consolidados, pode ser que sejam necessários alguns ajustes nas reuniões. Coisa pouca, só por precaução. No dia marcado para os Gulosos Anônimos se juntarem, melhor que a mesa do lanchinho seja eliminada. Ninguém precisa ser tentado bem na hora em que está se esforçando para se libertar. E tem o efeito manada. Se um sujeito em recuperação resolve chutar o balde, a chance de levar os outros para o abismo do abuso gustativo é gigante. Fora que comida desconcentra. Sou da turma, sei do que estou falando. Em uma conversa formal, em que se é obrigado a fazer a linha profissional, minutos longos são gastos pensando em que momento você vai poder atacar a cestinha de pão de queijo. Então fica estabelecido que no final do encontro, só água e chá. Mais desafiante seria manter a sanidade dos Luxuriosos Anônimos. Todos aqueles relatos cheios de culpa e lascívia, sei não. Por segurança, sugiro reuniões via Skype, garantindo assim um distanciamento cautelar. Quem sabe esse não é um recurso interessante também para os Irados Anônimos. Sendo que neste caso o cuidado seria mais para resguardar os vizinhos. Entre os pecadores compulsivos, temo apenas pela adesão a dois desses grupos. Como fazer os Preguiçosos Anônimos, descendentes diretos de Macunaíma, deixarem seu sofá, sua falta de vontade, sua indolência crônica para discutir com os outros sua agonia. Com que energia? Só se incluirmos aí especificidades da lombeira, como preguiça matinal, preguiça de gente, preguiça de trabalhos domésticos, preguiça que se instala depois de 12 anos de casado. Pode ser... Sem solução mesmo só os Invejosos Anônimos porque ninguém admite que sente inveja. Quando a confissão sai num rompante desenfreado, o pobre atormentado trata logo de dizer que sentimento tão abominável está ali na sua forma boazinha, vestido de branco. Se você ainda insiste que o que dominou seu corpinho é inveja mesmo, vem sempre um para contemporizar: “Não é nada, é só ciúme”; “Imagina, isso é cobiça”; “Isso aí é ambição, coisa pouca”. Pois estou aqui pra dizer que há 14 horas não sinto inveja de ninguém. Mereço uma medalha? Texto publicado originalmente em 9.11.2012.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave