Cidade iluminada por espelho vira ponto turístico na Noruega

Município não recebia luz do sol até artista criar tecnologia que usa espelho para refletir os raios

iG Minas Gerais | Suzanne Daley |

Rjukan. Durante seis meses do ano, a cidade fica escondida do Sol, que passa por trás da montanha
Kyrre Lien / The New York Times
Rjukan. Durante seis meses do ano, a cidade fica escondida do Sol, que passa por trás da montanha

Rjukan, Noruega. Nessa antiga cidadezinha fabril, na região central da Noruega, o sol se esconde por trás das montanhas durante seis meses por ano. E enquanto o sol aquece outras regiões, o desejo de sentir um pouco de calor na pele cresce em Rjukan.

Quando o artista conceitual Martin Andersen se mudou há doze anos, ele vivia perseguindo os últimos raios para se esquentar. Em uma dessas caminhadas, ele teve a ideia de instalar espelhos imensos contra a face da montanha, ao norte, para jogar um pouco de luz sobre Rjukan.

A cidade acabou concordando com o experimento e, no fim do ano passado, três espelhos movidos à energia solar e eólica (para seguirem a trajetória do sol) começaram a refletir seus raios na praça central. Centenas de pessoas fizeram questão de conferir a inauguração, usando óculos escuros e com cadeiras de praia a tiracolo. E, segundo garantem os moradores, depois disso a vida mudou.

O ambiente se tornou mais social. Depois do culto dos domingos, agora o pessoal fica na praça, conversando, rindo e bebendo, tentando não olhar diretamente para as superfícies refletoras. Só que o sol, pálido e fraco, não durou muito. De fato, durante quase três meses – de 25 de dezembro a 15 de março – o céu ficou tão nublado que os espelhos produziram apenas 17 horas de luz na praça, reforçando os argumentos daqueles que achavam o projeto um desperdício.

A maioria dos moradores, porém, não se incomoda com o revés. Os turistas também não parecem ligar. Viajantes começaram a chegar, inclusive de Oslo, a cerca de 3,5 horas de carro dali. O comércio registrou um crescimento discreto, e, se Rjukan for declarada mesmo Patrimônio da Humanidade pela UNESCO no ano que vem, a situação vai ficar melhor ainda.

Apesar disso, nem todo mundo se convenceu com a ideia dos espelhos. Nessa cidadezinha de seis mil habitantes, cerca de 1.300 fizeram um abaixo-assinado para vetar o projeto, mas houve críticos, como o universitário Robert Jenbergsen, que mudou de ideia. “No começo achei que seria um desperdício, porque o tempo por aqui é muito ruim, mas quando veio o sol, a felicidade foi geral. Nunca tinha visto nada parecido antes”.

“Um lugarzinho ao sol bem caro, esse”, reclama Annar Torresvold, 77, que se mudou para Rjukan depois de se aposentar como funcionário de uma fábrica de papel. “Agora ficou bem claro o que as pessoas comuns acharam, ou seja, que era um desperdício de dinheiro”.

Dez anos para ideia sair do papel Rjukan. Levou quase uma década para os espelhos serem instalados. O artista Martin Andersen foi quem começou o projeto, pesquisando os aspectos técnicos. Quando ele garantiu às autoridades que daria certo, elas imediatamente acionaram os engenheiros. No fim das contas, as superfícies refletoras – cada uma medindo 17 m² – chegaram de helicóptero e foram instaladas a 450 m acima da praça da cidade, com os movimentos controlados por computadores. O próximo passo é reformar a praça. “Não dá para fazer o sol brilhar em um espaço com cara de estacionamento”, opina o prefeito.  

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave