Brasil abre mão de uma Belo Monte dos produtores de cana

Falta incentivo do governo para a produção de bioenergia oriunda do bagaço de 400 usinas

iG Minas Gerais | Juliana Gontijo |

Potencial. Bagaço da cana gerado nas usinas de álcool pode produzir energia, mas falta incentivo
LEO FONTES / O TEMPO
Potencial. Bagaço da cana gerado nas usinas de álcool pode produzir energia, mas falta incentivo

O Brasil poderia ter uma outra Belo Monte no que se refere à geração de energia. Isso se todas as cerca de 400 usinas de cana-de-açúcar em atividade no país produzissem bioeletricidade, proveniente do bagaço da cana, acima de suas demandas, e comercializassem o excedente no mercado. A informação é do presidente executivo da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), Mário Campos. “Hoje, todas as usinas são autossuficientes em energia. Entretanto, só 40% delas comercializam o excedente energético. Logo, há potencial para crescimento, que são os 60% restantes”, explica.  

Para ele, a produção de energia do setor poderia ajudar o país, que passa por uma crise energética. Campos afirma que a bioeletricidade poderia complementar a matriz energética brasileira, evitando que o país fique refém do desempenho das hidrelétricas, que foram afetadas por dois anos de seca forte, e das térmicas, que produzem energia cara usando gás. “Só que faltam incentivos públicos”, diz.

Atualmente, a bioeletricidade responde por 7% da energia produzida no país, com 1.700 megawatts médio em 2013. “Se 100% das usinas comercializassem, poderíamos chegar a 12%, 13%. Temos potencial para chegar a 5.000 megawatts/médio”, observa. Para se ter uma ideia desse potencial, a capacidade prevista para a usina de Belo Monte, no Pará, será de 4.500 MW.

Dos 1.700 megawatts médio, Minas Gerais é responsável por 300 megawatts médio, 5% da geração de energia do Estado. “Desses 5%, gastamos metade no nosso processo produtivo”, diz. Campos explica que se fala em megawatt médio pelo fato de que a geração acontece durante o período da safra, que vai de abril a dezembro.

O presidente do Siamig ressalta que é necessário ter remuneração adequada, com preços de energia compatível com os custos de produção. “Hoje, para ter viabilidade, o preço pago tem que variar de R$ 160 a R$ 180 o megawatt/hora. Afinal, a usina precisa investir para aumentar o potencial de geração. A conexão com o sistema até onde o sistema suporta é feita por ela”, observa. O dirigente frisa que o valor do investimento para que isso seja viável varia muito. “Depende de vários fatores, um deles é a distância da usina do ponto de conexão com o sistema”, diz.

Ele afirma que o governo federal fixou preço-teto nos leilões muito baixo para a biomassa e a forte concorrência das energias eólica e gás natural fizeram com que diminuíssem a participação da bioeletricidade. “Nos últimos anos, o preço não tem sido competitivo, já se pagou pela energia eólica, por exemplo, menos de R$ 100 pelo megawatt/hora. Num dos últimos, chegou-se a pagar R$ 110 a R$ 120”, recorda. O preço da bioenergia é o mesmo da eólica.

Campos diz que a seca é um fator que pode atrapalhar a produção da bioeletricidade. Entretanto, as empresas já aprenderam a fazer ajustes. “Elas vendem sabendo o que é possível produzir. A energia eólica depende da natureza, da quantidade de vento, que se baseia na média, mas pode sofrer alterações, pois pode ter mais ou menos vento. É um tipo de energia mais propício para as regiões Nordeste e Sul do país, mas tem o complicador de necessitar de linhas de transmissão extensas para chegar ao maior mercado consumidor de energia, que é o Sudeste”, diz.

Saiba mais Oferta. Desde a década de 80, o Brasil usa a cana para fazer a bioeletricidade. Em 2010, a produção para o sistema elétrico foi equivalente à energia necessária para atender 20 milhões de pessoas.

Dívida chega a R$ 42,42 bi Segundo as empresas sucroenergéticas, as dívidas contraídas pelo setor como um todo para fazer expansão e, posteriormente, para financiar as safras, são equivalentes a R$ 100 por tonelada de cana, totalizando R$ 42,42 bilhões em dívidas na safra 2013/2014 – valor 8% superior aos débitos acumulados na safra anterior. Para a próxima safra, os custos do setor devem crescer cerca de 13%, nas contas da Siamig, com salários mais altos, problemas climáticos e possíveis mudanças na política de preços de combustíveis. E a dívida deve crescer. (Da redação)

 

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