O tráfego de veículos, a ministra e as chorumelas do ex-presidente

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DUKE
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Não é só o tráfego de veículos, muito menos os péssimos motoristas que nos extenuam. Deparo-me com eles todo dia, desde o instante em que deixo minha casa em direção ao escritório, no centro da cidade. E não culpo só o prefeito Marcio Lacerda, que poderia, pelo patrimônio que acumulou como empresário, curtir a vida, em vez de ser objeto de impropérios de toda ordem, provenientes dos que acham que fazer obras numa cidade como a nossa é coisa fácil. Se tivesse que culpar alguém, com a mão pesada de juiz que não transige diante da lei, culparia os inventores dessa política econômica cruel, que prioriza o consumo (de veículos) e deixa em frangalhos a infraestrutura. Além da idade (que só avança, e contra isso não há remédio), os absurdos que acontecem diariamente neste país também ajudam, substancialmente, nesse estrago (diário) físico e mental. À noite, quando me recolho, apelo aos meus mortos queridos para conciliar o sono. Pode parecer estranho, mas eles me resgatam a tão almejada paz. Hoje, leitor, além do frio, dois assuntos me incomodam e me desafiam. O primeiro: a correta decisão da ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber sobre a CPI exclusiva da Petrobras. O segundo: as declarações no mínimo levianas do ex-presidente Lula, em Lisboa, à televisão portuguesa RTP, sobre o julgamento do mensalão. Só alguém de má-fé poderia acreditar noutra decisão da ministra. A garantia ao direito das minorias é pedra angular do regime democrático. Se a ministra fosse a favor dos que tentaram inviabilizá-lo, à frente o presidente do Senado, senador Renan Calheiros, preocupado agora muito mais com sua vistosa cabeleira do que com os destinos do país, estaria definitivamente inviabilizado o único regime político que nos permite enxergar no horizonte ainda longínquo um mínimo de esperança. Na entrevista à televisão portuguesa, eis o que disse Lula: “O mensalão teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica. O que eu acho é que não houve mensalão”. Lula foi infeliz e grosseiro ao atingir em cheio o Supremo Tribunal Federal. Foi grosseiro ao interromper a entrevistadora, que se referia ao fato de que há pessoas da sua confiança presas (como o ex-ministro José Dirceu, Delúbio Soares e os ex-deputados José Genoino e João Paulo Cunha), com a frase: “Não se trata de gente da minha confiança”. E arrematou: “Tem companheiro do PT preso. E eu também não vou ficar discutindo a decisão da Suprema Corte. O que eu acho é que essa história vai ser recontada. Esse processo foi um massacre que visava destruir o PT”. Com relação à frase “não se trata de gente da minha confiança”, Lula pode ter sido realmente infeliz e se expressado mal. Embora o ex-presidente tenha sido mal-interpretado por parte da imprensa, não creio que ele desconheça que há, entre os condenados, companheiros da primeira hora no PT. O que de fato merece repúdio, não só do STF, mas dos que defendem o regime democrático, é a crítica verbalizada em outro país do julgamento de um esquema de corrupção organizado pelo seu partido para comprar apoio político no Congresso Nacional, mediante desvio de dinheiro público e empréstimos bancários a partidos. Foi essa a conclusão a que chegou o STF, segundo a totalidade dos seus juízes. O ministro Marco Aurélio Mello acertou na mosca: o que disse Lula à RTP é, simplesmente, “um troço de louco”. Ou pura chorumela. Ou coisa imprestável, que só depõe contra o ex-presidente.

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