Filme não encontra um novo ‘rosebud’

Longa revisita os eventos que levaram ao suicídio do icônico presidente

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Transformação. Tony Ramos encara um Getúlio acuado e condenado à morte no longa de João Jardim
Photographer: Bruno Veiga
Transformação. Tony Ramos encara um Getúlio acuado e condenado à morte no longa de João Jardim

Um presidente popular perseguido pela mídia de direita. Um escândalo político que desestabiliza um governo em ano eleitoral. Uma equipe do primeiro escalão inconsequente e ambiciosa que passa uma rasteira em seu próprio líder. Confronto nas ruas entre apoiadores e detratores da presidência.

Lançar “Getúlio” meses antes das próximas eleições presidenciais é uma decisão delicada e ousada, dados os paralelos perigosos que a produção pode sugerir com o cenário político atual. Mas para o diretor João Jardim (“Amor?”), seu longa comenta exatamente sobre essa resistência do mito do “salvador da pátria” na sociedade brasileira, de acreditar que é sempre uma pessoa a responsável, quando o problema na verdade é o sistema.

“Não é uma coisa de governador ou presidente. O filme sugere que o país não mudou e como esse é um erro que a gente comete há 70 anos”, defende. Jardim acredita que a produção – que acompanha o Palácio do Catete nos dias que se seguem ao infame atentado da rua Tonelero e que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas (Tony Ramos) – revela como “existe uma cumplicidade geral entre governantes e pessoas na periferia política fazendo o que eles querem”.

O paradoxo dessa defesa é que, apesar do desejo de retratar essas engrenagens do sistema, o foco do longa, como o próprio título sugere, é em Vargas. O “castelo de cartas” e o “jogo de tronos” político que acontece em torno do presidente são mostrados apenas como contexto nas coxias da trama. Na disputa entre thriller político e tragédia pessoal, vence a segunda. E o fato que de seu desfecho é um spoiler aprendido na oitava série, associado ao didatismo excessivo com nomes das autoridades aparecendo na tela, deixa um déjà vu com cara de aula de história brasileira.

Jardim – que, coincidência ou não, editou a minissérie “Agosto” – se arriscou a revisitar uma história tão conhecida e contada em livros e na TV porque enxergou nela os elementos de um bom filme. “É um protagonista polêmico e contraditório, além de crime, inquérito policial, relação de família, traição. São muitos elementos importantes para a dramaturgia cinematográfica”, analisa.

O problema é que, ainda que tecnicamente bem feito, “Getúlio” não acrescenta nada de novo a essa besta mitológica da história política brasileira. Não há um novo rosebud descoberto para o Charles Foster Kane tupiniquim. Mesmo a relação de Vargas com a filha Alzira (Drica Moraes), que ganha grande espaço no longa, não diz a que veio e não lança um novo olhar sobre o personagem.

Com isso, o grande destaque é Tony Ramos. Mais que a transformação física, seu desafio é viver um protagonista nem ativo nem passivo, mas reativo. Um homem sob pressão inimaginável, pego de surpresa por golpes e rasteiras a cada curva da trama, e ainda inteligente o bastante para ganhar o jogo de xadrez com seu movimento final.

Curiosamente, o diálogo do ator com seu diretor se deu pela experiência do último com documentários e a paixão dos dois por pesquisa. “Indiquei o Getúlio que eu conheci e deixei ele encontrar o personagem que estaria no filme”, conta Jardim.

O outro destaque é a obsessão quase excessiva da fotografia e da direção de arte com a arquitetura do Palácio do Catete. Com exceção da cena do atentado, “Getúlio” é um filme claustrofóbico, de interiores e espaços fechados. E a simbologia do Catete como edificação do poder máximo, nesse sentido, é subvertida pelo longa.

“É uma metáfora de como o poder pode ser uma prisão. Ele é um cara condenado ali, e o palácio vira um corredor da morte”, elabora o diretor. Essa ideia é reforçada ainda pela trilha agourenta e quase onipresente de Federico Jusid, que martela o tempo todo o peso da tragédia que está por vir.

Se falta ousadia a esse retrato, Jardim responde com a importância histórica do longa. “Ousadia é lidar com esse fantasma e com esse peso. Tem que estudar muito e entender do que se está falando”, argumenta.

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