‘Israel invade a Síria com armas químicas e ninguém fala nada’

Ghassan Nseir - Embaixador da Síria no Brasil em passagem pela capital mineira

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Ghassan Nseir - Embaixador da Síria no Brasil em passagem pela capital mineira
MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Ghassan Nseir - Embaixador da Síria no Brasil em passagem pela capital mineira

Em visita a Belo Horizonte, o embaixador da Síria no Brasil fala sobre a relação entre os dois países e da sua vontade de conhecer a comunidade síria na capital mineira. Ghassan Nseir também revelou a sua opinião sobre os países “patrocinadores” do conflito.

Qual a sua avaliação da situação atual do conflito na Síria? Uma guerra contra o terrorismo do mundo inteiro. Infelizmente, aqueles que sobem no palanque para falar dos direitos humanos e contra o terrorismo são os mesmos que os patrocinam. Os terroristas estrangeiros que foram para a Síria estão guerreando para estabelecer um fanatismo, não aceitam a opinião e participação dos outros. Arábia Saudita, Turquia, França, Estados Unidos e Inglaterra trabalham para destruir a Síria, porque somos um dos únicos países do mundo árabe que ainda defendem os palestinos.

O povo sírio não concorda com esse conflito?

Todos os sírios são capazes de decidir sobre quem vai governar a Síria e qual estilo de governante nós queremos. Não queremos um estrangeiro ocupando nosso espaço e decidindo por nós. A Síria tem, mais ou menos, 27 grupos que sempre conviveram em harmonia.

Segundo a ONU, mais de 3 milhões de pessoas já deixaram a Síria e muitos imigrantes vieram para o Brasil. Qual o impacto? No início do conflito, tomamos um susto ao escutar sobre muitos campos para receber refugiados na Turquia, na Jordânia e em outros países quando, na verdade, não teve nada disso. A imprensa internacional mostrou muitas tendas montadas, mas sem ninguém dentro, e essa campanha era muito organizada e forte. O objetivo era esvaziar cidades, aldeias e municípios. Essa história de refugiados na Turquia e na Jordânia não é mais segredo que é para esconder dinheiro de ajuda internacional a esses países. Tenho certeza de que, quando isso se acalmar, e não vai demorar muito, todos esses refugiado vão voltar. As portas da Síria sempre estarão abertas para que todos os que saíram voltem, e assumimos o compromisso de que eles vão encontrar um lugar mais pacífico.

A Síria também sempre recebeu muitos imigrantes?

Ao longo da história, o povo sírio foi muito acolhedor dos povos que sofreram com guerras. Na Síria tem muitos palestinos. Na última guerra do Líbano, em 2006, os sírios abriram as portas para esses irmãos, mais de 5 milhões de iraquianos foram para a Síria, e eles sempre viveram na casa dos sírios compartilhando tudo: comida, educação e hospitais.

Quais as perspectivas para o futuro do país, uma vez que o presidente Bashar al-Assad já apresentou a sua candidatura para as eleições no dia 3 de junho? Essa eleição segue a Constituição síria. Hoje (ontem) havia 11 candidatos para assumir o cargo de presidente, entre eles, no mínimo, três mulheres. A eleição vai ocorrer na data marcada, e o povo sírio está em uma harmonia e unidade maravilhosa ao redor do governo e do Exército, que estão oferecendo muitos sacrifícios para manter a liberdade e dignidade do povo.

A Síria precisa de ajuda externa?

Não queremos nenhuma força externa, porque eles já destruíram igrejas, mesquitas, sequestraram bispos e religiosos, mataram muitas lideranças islâmicas. Mais de 700 hospitais foram destruídos, 4.500 colégios, além de muitos museus. A Turquia levou todas as fábricas que estão perto da fronteira com a Síria.

A boa relação entre a Síria e o Brasil pode influenciar na solução do conflito? A relação entre a Síria e o Brasil é muito antiga e especial, nós temos pontos muito fortes a favor da grande comunidade de imigrante de sírios que vieram para o Brasil desde o século XVIII, porque esses nossos filhos participaram da construção do futuro do Brasil. Cerca de 99% da comunidade síria no Brasil apoia o governo e a política da Síria. O Brasil é um país muito respeitoso dos direitos humanos, dos direitos internacionais, um país muito inteligente e que, desde o inicio do conflito, manifestou um papel de não decidir sobre a vida de outros povos. Quem está apoiando a Síria hoje não está apoiando um presidente, mas uma justiça internacional.

Por que a Síria faz uso de armas químicas? A Síria teve armas químicas que fazem parte de uma estratégia de defender as fronteiras, mas nós já entregamos 86% dessas armas. Porém, sabemos que Israel está invadindo o território sírio com armas químicas piores, e ninguém fala nada ou fiscaliza esse armamento perigoso.

O que foi apurado desde o massacre das crianças em 2013? Mostraram muitas imagens manipuladas e falaram que são da Síria. Uma grande pergunta que o povo sírio faz é como só foi mostrado um lugar que só tem crianças e mulheres? Eles não têm homens, avós e família? Está todo mundo no mesmo lugar, parecendo que (foram) colocados em um lugar para ser filmados. Na mesma época, foi mostrado que a Turquia encontrou terroristas com gás sarin muito venenoso e alguns presos confessaram que levaram o gás da Turquia para a Síria.

Como pode ser resolvida a relação com os países considerados patrocinadores do conflito? Eles cortaram a relação diplomática, fecharam nossa embaixada, então não tem relacionamento diplomático. Qual relacionamento vamos ter com uma pessoa que está pagando para matar nosso povo, não dá remédio para um doente e leite para uma criança?

Como esses acontecimentos ameaçam o Estado sírio? Os sírios estão muito tristes porque não conseguem entender por qual motivo o mundo inteiro está guerreando na Síria. Quem está pagando é o povo. Todas as contas bancárias do governo sírio no exterior foram bloqueadas. Temos muitos alunos fazendo faculdade no exterior, e o governo estava custeando esses estudos. Agora, eles foram obrigados a parar.

Você vê uma solução para o conflito? A vida é bela, e vejo o povo continuando para conseguir uma civilização síria rica de paz. Machuca o coração dos sírios ver que líderes do mundo inteiro são capazes de matar um povo inteiro para atingir o interesse deles. Os sírios nunca deram palpite sobre a Torre Eiffel ou o vestido da rainha Elizabeth, então por que eles querem falar sobre a gente? O problema desde o início no Oriente Médio é Israel – esse câncer que foi espalhado, tirando o povo palestino inteiro do seu país, uma vergonha do século XX e que segue pelo século XXI.

Qual o motivo da sua visita a Belo Horizonte? Eu sempre tive grande vontade de encontrar a comunidade síria em Minas Gerais. Minha alegria é grande porque encontrei uma comunidade maravilhosa, uma família grande e unida. Tivemos a oportunidade de comemorar a data da independência síria. Essa harmonia é exemplar, reunindo o consulado, a mesquita e o clube sírio.

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