A coalizão dos indignados

iG Minas Gerais |

A burocracia do ar-condicionado é refratária ao calor das ruas, vielas e becos. Por isso mesmo, fechados na redoma de estatísticas frias, os burocratas costumam desenhar cenários de um país diferente daquele em que vivem seus habitantes. São também afamados pela “contabilidade criativa”, que usam com frequência para puxar para baixo as contas que batem no bolso do consumidor, principalmente em ciclo de disputa eleitoral. A inflação das ruas não conta para o burocrata. A aritmética das massas não entra nas quilométricas planilhas dos senhores dos cálculos. E assim, longe dos gritos de feirantes e da reclamação das donas de casa, a insensibilidade da burocracia econômica arruma a “cama” dos gestores públicos, sob o risco de provocar torcicolo em candidatos. São bons em promessas, como a de que a inflação, neste ano, se manterá na meta de 4,5%, com dois pontos para mais ou para menos. Convém lembrar que período de eleições é o mais propício às manifestações populares. Este ano possui, portanto, uma identidade peculiar, ainda mais por abrigar a Copa do Mundo, o maior evento esportivo mundial. É bastante previsível a hipótese que aponta para a existência de bolsões represados aguardando o momento para despejar sua indignação. Cheguemos, agora, ao epicentro das manifestações de rua, formado por grupos com origem na classe média C, os emergentes que escalaram os degraus de baixo da pirâmide para chegar ao primeiro andar do meio. Nesse espaço, alinham-se os grupos que puxam a corrente do “queremos mais”. O pão sobre a mesa já não lhes é suficiente. Exigem serviços públicos qualificados. As classes médias tradicionais também disparam fortes sinais de descontentamento, menos por conta da pressão da inflação das ruas e mais por se verem inundadas por uma volumosa torrente de escândalos em série. O longo episódio que culminou na condenação de implicados na chamada “Ação Penal 470”; o desvendamento de teias de corrupção nos intestinos da administração pública e que batem na Petrobras; a polêmica que se estabeleceu em torno de programas como é o caso do Mais Médicos; as nuvens que se formam em torno das arenas esportivas; a repetição de mantras da velha política, com as interjeições do passado a mostrarem a perpetuação de vícios – esse é o cenário da degradação que acolhe a gestão pública e a esfera política. Não por acaso, elevado índice de brasileiros – 72%, segundo o Ibope – não tem nenhum ou quase nenhum interesse na eleição. Os setores produtivos, por sua vez, se mostram igualmente insatisfeitos. Vale lembrar que nunca se abriu tanto a caixa das desonerações tributárias como no governo Dilma. Mesmo assim, são claras as manifestações de desagrado com a política econômica, a traduzir inconformismo com os rumos da economia. Como se pode inferir, há um “Produto Nacional Bruto de Insatisfação” que a burocracia brasiliense teima em não enxergar ou não querer medir. Sem aviso prévio, grupos vão formando o que se pode designar de “coalizão dos indignados”, que ameaça todos os candidatos.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave