A história vivida e a história contada

iG Minas Gerais |

Passo a palavra ao secretário geral da Mesa da Câmara dos Deputados, Mozart Vianna, sobre a votação, em 25.4.1984, da emenda das Diretas Já, do deputado Dante de Oliveira: “Ali o governo percebeu que não tinha mais apoio e que seria derrotado mais cedo ou mais tarde. De certa forma, aquela votação ajudou a convencer os militares de que eles precisavam aceitar a candidatura de Tancredo Neves, o que eles de fato acabaram fazendo” (“Correio Braziliense”, 25.4.2014). Na semana que passou, os brasileiros que viveram ou conhecem a trajetória histórica do país lembraram a memorável campanha das Diretas, as multidões lotando as ruas e a participação decisiva das mais diversas expressões políticas do Brasil da época. Entre nós, mineiros, assim como há um culto acrítico às realizações de JK, também há um endeusamento do papel exercido pelo então governador do Estado, eleito diretamente em 1982. Tive a honra de ser dele adversária, naquele ano, representando o Partido dos Trabalhadores, minúsculo, desconhecido, pobre, indigente mesmo, sobretudo no desconhecimento dos meandros da chamada “grande política”. No único debate transmitido pela televisão, fui por ele fulminada com uma única e demolidora avaliação: “A senhora, professorinha, tem uma inteligência perigosa”. Tentei raciocinar na hora: como responder a quem me diminuía chamando-me de “professorinha” e me negando o direito de estar no espaço público dos homens? Chamando-o de “velhinho”? Deixei passar... nada sabia dos truques ensinados por marqueteiros bem-pagos... Reconheço-lhe muitos méritos. A história os registra. Mas não registra o que ele fez para se tornar o primeiro presidente pós-ditadura e que abriu caminho para a transição pactuada que nos meteu nesse imbróglio, capitaneado por Sarney primeiramente e, depois, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma, todos eles fiéis representantes das elites políticas e econômicas que dominam o país há cinco séculos. No dia 13 de março de 1983, Tancredo despedia-se do Senado para tomar posse como governador de Minas. Seu discurso, ao mesmo tempo em que propunha uma mudança de rumos, reafirmava o horizonte da conciliação, que começara com uma anistia pelas metades e que prosseguiria com uma democracia amputada. Na Semana Santa de 15 a 22.4. 1984, estive em Diamantina e lá dei carona para uns jovens israelenses. Eles só falavam inglês. Dei-lhes uma estrelinha do PT. Afiancei que podiam usá-la sem medo. Dias depois – no exato dia da votação da Emenda Dante de Oliveira –, houve uma manifestação na praça da Rodoviária, e meus amigos israelenses foram presos, junto com o presidente municipal do PMDB de BH, Roberto Martins. Motivo? A vigília em prol da aprovação da Emenda Dante de Oliveira, das Diretas Já. Quem mandou reprimir a manifestação? O governador Tancredo Neves, cantado e decantado defensor das eleições diretas para presidente. Isso eu vi.

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