Antes tarde do que nunca

iG Minas Gerais |

ARQUIVO/AGÊNCIA ESTADO
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Durante toda esta semana, certamente um dos assuntos mais comentados será a passagem do 20° da morte de Ayrton Senna. De lá para cá, tudo que poderia ser dito, publicado, divulgado e documentado, já foi. Lugar-comum é dizer que a Fórmula 1 para os brasileiros nunca mais foi a mesma. Da mesma forma que as manhãs de domingo, quando Senna desfilava pela pista erguendo a bandeira do Brasil pelos autódromos mundo afora; hoje se repetem essas cenas pela televisão apenas como flashes para retomar a memória. De fato, a Fórmula 1 mudou depois do trágico dia 1° de maio de 1994. Principalmente em termos de segurança: nenhum outro piloto se vitimou fatalmente nas últimas duas décadas. E essa preocupação já estava em pleno curso quando aconteceu a batida na curva Tamburello. E é a respeito disso que gostaria de comentar uma particularidade que por muitos anos me intrigou e que só recentemente me foi plenamente esclarecida. Há 20 anos, como milhões de brasileiros, estava ligado na TV, assistindo ao GP de San Marino, como fazia em todas as semanas de corrida. Naquela temporada, a primeira dele na Williams, as coisas não vinham bem. Nas quatro provas até então realizadas, contando com a de sua morte, Senna largou na pole position, lugar quase cativo que ocupou por toda a sua carreira na categoria. Mas mesmo saindo na frente, acabou rodando e não completou nenhuma destas etapas. E na derradeira corrida, naquele fim de semana em que a “bruxa” estava solta, com o acidente de Rubinho Barrichello e depois da morte do austríaco Roland Ratzenberger, as imagens reveladas eram de um Ayrton Senna, distante e reflexivo. Olhar perdido no meio do nada, buscando respostas que nunca viria a ter. Mas tudo isso já foi repetido milhares de vezes. O que me impressionou mesmo foi a postura de Alain Prost, seu arquirrival. Assim que o caixão chegou ao cemitério em São Paulo e foi formado o cortejo, Prost se colocou à frente de todos e foi o primeiro a segurar uma das alças da urna funerária. Logo ele, que tantas disputas dentro e fora das pistas protagonizou com Senna. A rixa era tamanha que, no ano anterior, Alain assinou com a Williams, equipe que se sagrou tetracampeão, com uma cláusula que vetava a presença de Ayrton na equipe. Queria evitar por certo o mesmo desgaste sofrido quando foram companheiros na McLaren. Sem falar nos episódios de 1989 e 1990, quando, na decisão do título naquelas temporadas, os dois se estranharam, chegando a colocar em risco a própria integridade física em acidentes provocados com a clara intenção de interromper a corrida um do outro. Primeiro o francês (em Suzuka, no Japão) fechou o brasileiro para garantir o título; no ano seguinte, no mesmo circuito, Senna também não pensou duas vezes antes de bater no rival para conquistar o seu bicampeonato. A competitividade do brasileiro sempre incomodou diversos adversários. E essa característica vinha de longe. Mas a rivalidade entre Senna e Prost foi arrefecida com a saída do francês das pistas, e uma amizade começou a se fortalecer e foi revelada em um documentário com depoimento de Alain Prost que confidenciou que os dois estavam muito próximos e que no fim de semana do acidente esteve por muito tempo com Senna, que o procurou até mesmo antes de sua última largada. Juntos, os mais influentes pilotos daqueles tempos trocavam ideias e se preparavam para formar uma comissão que estudaria novas regras de segurança para as provas de Fórmula 1. Não deu tempo, e restou a Prost render sua última homenagem mostrando sua solidariedade ao amigo, diante de milhões de expectadores de todo o mundo que assistiram pela televisão ao adeus ao nosso eterno tricampeão. 

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