O fogo eterno de Shakespeare

No ano em que completaria 450 anos, maior dramaturgo de teatro da história ganha fórum para pensar sua obra

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Ladrão! Shakespeare é mundialmente reconhecido por sua capacidade de se apropriar de narrativas alheias para compor sua obra, tanto textos de teatro como também histórias populares que se ouvia pelas ruas da Inglaterra.
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Ladrão! Shakespeare é mundialmente reconhecido por sua capacidade de se apropriar de narrativas alheias para compor sua obra, tanto textos de teatro como também histórias populares que se ouvia pelas ruas da Inglaterra.

Ao se deparar com os complexos versos, em inglês medieval, do dramaturgo mais famoso da história do teatro, um desavisado talvez não entenda o porque de tamanha veneração ao inglês. O encenador Peter Brook diria que a obra de Shakespeare funcionava feito o carvão. Primeiro, era preciso atear fogo nele para entender sua real qualidade. É na cena que a força de Shakespeare é entendida e até hoje segue como verdadeiro tratado sob a condição humana.

Para celebrar os 450 anos de vida do inglês, o “Fórum Shakespeare” oferece, a partir de hoje no CCBB, extensa programação com presença de estudiosos, teóricos e artistas que desenvolvem pesquisa e/ou trabalhos referentes à obra de Shakespeare.

Mas o que, afinal, faz a obra do “Bardo” – como carinhosa e popularmente se referem ao artista nascido em Strafford–Upon– Avon – tão recorrente tanto tempo depois?

“Shakespeare nasceu num mundo que se transformava quase que tão rápido e dramaticamente quanto o nosso. Assim como os navegadores portugueses e os povos indígenas do que chamamos hoje de Brasil, ele estava constantemente inventando e descobrindo novos territórios. Mesmo nunca tendo deixado a Inglaterra, ele possibilitou que o público dos primeiros teatros de Londres, no fim do século XVI, encontrassem uma estonteante gama de personagens vindos de mundos fantásticos, históricos e também terras modernas. Ele deu vida a um ‘admirável mundo novo’ de ciência e tecnologia, e ousou engajar-se com os pensadores, políticos e filósofos, que estavam colocando de cabeça para baixo o mundo conhecido”, destaca o inglês Paul Heritage, criador e curador do Fórum Shakespeare, junto a Aimara Resende.

Heritage, acompanhado de seus pais, conheceu a obra de Shakespeare in loco, no teatro Strafford–Upon–Avon, quando ainda era criança. Sua relação com o Brasil também já acumula alguns anos, tanto que ele demonstra desenvoltura com a língua portuguesa. “Shakespeare me trouxe ao Brasil pela primeira vez em 1991. Acompanhei uma produção de ‘As You Like It’ e dei uma palestra sobre as comédias de Shakespeare em cinco cidades. Desde aquele momento, voltei muitas vezes ao Brasil e sempre com Shakespeare na minha mala. O levei para as penitenciarias de Papuda (Brasília) e Carandiru (SP), à Liga de Quadrilha no Acre e ao palco do Teatro Fernanda Montenegro no Leblon (Rio)”, afirma.

O Fórum Shakespeare – criado por ele, em 1995 – nasceu de uma parceria do CCBB, do Rio de Janeiro, com o British Council e se fortaleceu com a relação artística entre o Royal Shakespeare Company e o grupo Nós do Morro, que encenaram juntos “Dois Cavalheiros de Verona”. “Quem sabe quais novas parcerias vão aparecer durante o Fórum Shakespeare 2014, que estamos apresentando nos quatro CCBBs – do Rio, Belo Horizonte, Brasília e São Paulo? Nada melhor que o Shakespeare para mostrar a força do diálogo cultural entre esses dois países”, sintetiza o curador.

Programação. Os cinco dias de Fórum prometem transformar o feriado prolongado em uma verdadeira imersão na obra do dramaturgo inglês. Na abertura, o curadores Paul Heritage e Aimara Resende se juntam aos atores do Grupo Galpão Beto Franco e Antônio Edson na mesa-redonda, “Shakespeare, Nosso Contemporâneo Brasileiro”. “O que une trabalhos como ‘Romeu e Julieta’ (clássico do Grupo Galpão) a Shakespeare é justamente o fato de buscar no folclore, no popular suas inspirações. É realmente impressionante que isso aconteça tanto tempo depois e em um país de cultura diferente”, destaca Aimara Resende.

“Diversidade é a palavra-chave na programação. Temos diretores, atores, tradutores, poetas, professores, críticos, produtores e uma fotógrafa. Temos brasileiros e britânicos, mas também um acadêmico da África do Sul e diretores teatrais de Holanda, Malásia e Índia. Temos pessoas que tem pouco mais que 30 anos, como Vik Sivalingam e Helen Kurtzz, e pessoas entrando na nona década, como Cicely Berry e Bárbara Heliodora. O panorama de Shakespeare é sempre diverso. Ele oferece as antíteses do mundo, então temos divergências e concordâncias, debates e discussões, rachas e pontes entre posições opostas – entre to be e not to be. A herança de Shakespeare é a de desmontar nosso saber e certezas”, destaca Heritage.

Programação aberta ao público

Hoje, 19h. Mesa-redonda “Shakespeare, Nosso Contemporâneo Brasileiro” Amanhã, 19h. Palestra “Apropriando, adaptando e trabalhando com Shakespeare no mundo contemporâneo” Sexta, 19h. “Shakespeare – O mais famoso dramaturgo do mundo”, Segunda, 19h. Masterclasse Fórum Shakespeare Onde. Centro Cultural Banco do Brasil (praça da Liberdade, 450, Funcionários) Quanto. Gratuito. Distribuição de senhas com uma hora de antecedência

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