Parte dos moradores da região é contra criação da barragem

Muitos herdaram as terras de parentes e veem nelas sua fonte de subsistência; eles alegam que contam com água e que o reservatório não é garantia de vida melhor

iG Minas Gerais | Johnatan Castro |

Temor. Na região há 35 anos, Maria Helena e o marido João Alves não acreditam em solução para a seca
Fotos Daniel de Cerqueira
Temor. Na região há 35 anos, Maria Helena e o marido João Alves não acreditam em solução para a seca

Indaiabira. “Já teve época em que eu não podia fazer café para as visitas porque não tinha água”. O relato é de Maria Helena de Almeida, 59, moradora de Indaiabira, no Norte de Minas. Há anos a região conhecida como Alto Rio Pardo sofre com os reflexos da seca. A família da dona de casa é uma das 421 que, segundo o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), terão terras invadidas pelas águas do rio Pardo caso a barragem do Berizal seja concluída. Mesmo o projeto sendo apontado como a solução definitiva para a seca na área, os cerca de 1.200 moradores o veem com desconfiança e muitos são totalmente contrários ao empreendimento.

As famílias são acompanhadas de perto pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). O grupo questiona os números do Dnocs e afirma que, por meio de um cadastro, identificou 700 famílias vivendo no território do reservatório. A maioria terá que ser desapropriada, reassentada e indenizada. Alguns produtores de café, com terras mais amplas, terão somente parte de seus terrenos invadidos pelo lago. “Não somos contra. Mas todo mundo ali dependerá do dinheiro da indenização. E se tiver a verba, não vamos abrir mão de nenhum direito dos atingidos”, diz Elane Rodrigues, coordenadora estadual e regional do MAB. Ela reclama da falta de diálogo com o Dnocs. A obra beneficiará diretamente cinco cidades, mas os atingidos se concentram em Indaiabira, com cerca de 7.300 habitantes e distante 721 km da capital. Contrários. O perfil dos moradores contrários à barragem é diverso. Em comum eles têm o amor pela terra, muitas vezes herdada. Em um terreno de 230 mil m², Aurindo José Ribeiro planta abóbora e feijão e já prepara o terreno para 5.000 novos pés de tomate. Ele ainda é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Indaiabira. “A barragem é uma questão política, feita para os grandes produtores de café. Mesmo quando o rio seca, ainda dá para puxar água dos poços. Não temos expectativa de melhoria de vida com essa barragem”, diz, ressaltando as dificuldades de recomeçar a vida em outras terras. Militante do MAB e filho de Maria Helena, Valcileno Almeida de Souza, 27, também rechaça as promessas de melhoria. “Perder nosso terreno seria complicado porque não tenho a garantia que a água será em abundância”. A dona de casa Telma Adriana Silva, 27, planta pouco no pequeno sítio que herdou do pai. Ela não tem a bomba elétrica que retira água do rio Pardo e depende de um caminhão-pipa para ter água para beber. “Não temos problema de água. O caminhão-pipa é suficiente porque uso pouca água”, conta, reconhecendo que o rio vem sofrendo nos últimos anos. “No ano passado, só se via pedra e areia. Mas com fé em Deus vai chover mais”. O TEMPO publica uma série de reportagens sobre a Barragem de Berizal. Nesta quarta, veja as promessas de investimentos, caso a barragem, parada há 17 anos, saia do papel

Eletricidade Potencial. Segundo o Dnocs, a barragem do Berizal em princípio não tem potencial elétrico. Uma pequena hidrelétrica deve ser instalada para abastecer as adutoras do sistema local.

Saiba mais Abraço. No dia 13 de março deste ano, a Associação de Amigos das Águas do Rio Pardo realizou um abraço na barragem do Berizal para reivindicar a conclusão do empreendimento. Protesto. No mesmo dia, o MAB reuniu 120 pessoas e realizou um protesto contra a forma que a obra está sendo retomada, segundo eles, sem diálogo. Os militantes chegaram a invadir a Prefeitura de Indaiabira. Água tratada. Em Indaiabira, os atingidos pela barragem não têm água da Copasa em casa. Eles usam cisternas, poços artesianos e caixas que captam água da chuva para ter água para beber.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave