Pernambucano provoca limites do amor em novo romance

Escritor Raimundo Carrero mostra mais recente livro, escrito após ele ter sofrido um AVC

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Carrero escreveu parte do romance com apenas dois dedos
editora RECORD/divulgação
Carrero escreveu parte do romance com apenas dois dedos

Foram alguns meses com o corpo paralisado, sem poder escrever por conta própria. Quatro anos após ter um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o escritor pernambucano Raimundo Carrero, 66, lança o fruto de uma via-crúcis que o ensinou a transpor contradições e medos. “Tangolomango - Ritual das Paixões Deste Mundo” (editora Record), que ele lança hoje em BH, exigiu mais do que um esforço sentimental do escritor para falar das diversas formas de amor: exigiu literalmente vontade física.

19 de outubro de 2010 é a data que o pernambucano não esquece – quando sofreu o AVC e, após ser hospitalizado por 15 dias, voltou para casa com uma paralisia parcial no braço e perna esquerdos, além da fala comprometida. Por isso, as dez primeiras páginas de “Tangolomango” foram ditadas por ele e escritas por sua terapeuta.

Depois, Carrero usou apenas os dedos indicadores para terminar o romance. “Senti falta de escrever comigo mesmo naquele momento tão difícil, parece que um filme passava na minha cabeça todos os dias, eu precisava fazer algo por mim”, afirma.

Não à toa, seu romance mais recente tem só 127 páginas, mas recicla a obra inteira do pernambucano – vencedor do Prêmio Jabuti em 2000 com “As Sombrias Ruínas da Alma”, e mais recentemente também ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura pelo romance “A Minha Alma é Irmã de Deus”, em 2010. O livro, marcado por interseções poéticas de nomes como Fernando Pessoa e James Joyce, é permeado pela relação incestuosa entre tia Guilhermina e o sobrinho Matheus, personagens que aparecem no romance familiar “Maçã Agreste” (1989) e também em outra obra mais recente, “O Amor Não Tem Bons Sentimentos” (2008). Em todas as páginas de “Tangolomango”, o pernambucano provoca a existência contraditória de distintas formas de sentir, colocando o amor como efêmero, eterno, transformador e destrutivo. “O fato de os personagens estarem em outras obras faz parte de um apanhado sobre a minha carreira, onde escrevi tanto sobre o amor. O amor é complexo e confuso, não tem lógica lírica. Só com as variações de amor entendemos o humano”, arremata.

Agenda

O quê. Bate-papo com Raimundo Carrero, no Ofício da Palavra

Onde. Museu de Artes e Ofícios (praça da Estação, s/nº, centro)

Quando. Hoje, às 19h30

Quanto. Entrada gratuita

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