O filho e a sua cidade

População tem recordações positivas de Gabriel García Márquez, mas há também críticos

iG Minas Gerais | William Neuman |

Turismo. Visitantes na parte externa do museu em Aracataca
fotos Meridith Kohut/The New York Times
Turismo. Visitantes na parte externa do museu em Aracataca

Embora a paisagem da terra natal de Gabriel García Márquez venha se modificando com o passar do tempo, algumas singularidades da época da infância do escritor permanecem.Aracataca, Colômbia.

María D’Conti, de 96 anos, mora em uma casa verde de madeira que foi construída um ano antes de seu nascimento. Segundo Jiménez, o pai de D’Conti, Antonio D’Conti, serviu de inspiração para um dos personagens de “Cem Anos de Solidão” – o instalador de pianos Pietro Crespi.

D’Conti se recordou de García Márquez, a quem ela chamava de Gabito, brincando com outras crianças na praça em frente à casa de sua família.

“Ele era bonitinho”, disse ela, lembrando como ele e outras crianças ficavam sob as calhas das casas quando chovia. Enquanto ela falava, uma mulher fazia seu pé e pintava suas unhas num rosa brilhante. Num pátio nos fundos, os pássaros que ela cria vibravam em suas gaiolas.

O pai dela possuía dois cinemas, plantações de banana e um rancho de gado, disse ela. A família era rica naquela época, assim como Aracataca.

Dedos nodosos mostraram uma fotografia sépia de seu pai, um homem elegante com ampla gravata, colarinho alto, calças impecavelmente passadas e cabelo bem penteado. Mesmo conhecendo a aparente conexão de sua família com a ficção de García Márquez, ela disse nunca ter lido nenhum de seus romances.

“Tenho a vista ruim”, justificou ela.

Sua filha, Isabella Vidal, uma professora de arte de 60 anos, exprimiu o que é a contracorrente comum à adoração de Gabo por aqui. Ela questionou por que García Márquez não voltou a sua cidade natal para patrocinar boas obras. Ele ganhou muito dinheiro como escritor, continuou ela, e poderia ter investido parte dele pavimentando ruas ou construindo clínicas de saúde.

“O que ele deu a Aracataca?”, perguntou ela. “Para mim, ele não fez nada”.

García Márquez partiu daqui para causar um impacto mundial, embora sua influência literária seja especialmente forte na América Latina.

Segundo Héctor Abad, romancista colombiano de uma geração mais jovem, existe um lado negativo para a longa sombra lançada pela genialidade de García Márquez. Seu estilo realista mágico foi mal imitado por muitos, afirmou ele, romances retratando uma versão clichê da América Latina.

“Eu acho que García Márquez foi maravilhoso, mas o pior que ele deixou foi sua influência”, argumentou Abad. “O importante foi seu exemplo como escritor e pessoa, mostrando que podíamos escrever sem medo sobre qualquer coisa, com grande liberdade”. De uma forma essencial, Aracataca ainda lembra a Macondo de “Cem Anos de Solidão”, que no livro torna-se uma metáfora para a luta humana para superar o isolamento.

Em seus primeiros anos, Macondo era completamente cortada, uma cidade perdida na selva – e seu fundador, José Arcadio Buendía, obcecado em encontrar uma ligação com o resto do mundo.

Mesmo hoje, num mundo de celulares, televisão por satélite e carros velozes, os moradores daqui zombam da ideia de viver longe do centro das coisas. “Aracataca era uma cidade antiga, esquecida”, disse Elena Romero, uma dona de casa de 33 anos, relaxando num banco do parque. “Como Gabriel García Márquez recebeu um prêmio Nobel, Aracataca hoje é conhecida no mundo todo”.

Jorge Pólo, de 54 anos, comerciante e agricultor que conheceu García Márquez em algumas das visitas do escritor à cidade, afirmou: “Nós lhe demos sua nacionalidade e ele nos deu reconhecimento. Nós o agradecemos pela felicidade de termos nascido em Aracataca”.

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