A magia que encantou Gabo

Terra natal de Gabriel García Márquez, a colombiana Aracataca vive dilema entre manter referências do escritor ou se tornar uma cidade comum

iG Minas Gerais | William Neuman |

Lembranças. Área interna do museu criado na casa dos avós de Gabo, fonte das narrativas do autor
MERIDITH KOHUT
Lembranças. Área interna do museu criado na casa dos avós de Gabo, fonte das narrativas do autor

Colômbia. Além das lojas de celulares e motocicletas zumbindo como moscas no calor sufocante, a cidade natal de Gabriel García Márquez ainda possui alguma magia.Aracataca,

Ela ainda é um lugar onde maltratadas casas de madeira escondem jardins sombreados que sugerem mistérios furtivos, onde uma mulher de 96 anos pinta as unhas do pé de rosa e mantém pássaros em gaiolas, e onde crianças nadam em canais de irrigação que correm ao lado de ruas banhadas pelo sol.

García Márquez deixou esta cidade poeirenta ainda menino, mas posteriormente buscou inspiração aqui para sua maior obra – definida por um estilo conhecido como realismo mágico. Aracataca tornou-se um modelo para Macondo, a cidade que serve como palco de sua obra-prima, “Cem Anos de Solidão”.

A maior parte de seu tempo aqui foi gasta na casa de seus avós maternos, onde ele absorveu as histórias contadas por sua avó e outros parentes. Ele declarou que foi a maneira direta de sua avó contar as histórias mais fantásticas que inspirou a voz do narrador em “Cem Anos de Solidão”.

Agora, o local da casa de seus avós, onde ele nasceu e que alimentou o vibrante mundo de sua ficção, foi transformado num museu. Partes da casa original de madeira permaneceram até alguns anos atrás, mas tudo foi derrubado e reconstruído, de acordo com o diretor do museu, Daniel López.

Em seu lugar está uma estrutura limpa e caiada de branco que, sob alguns aspectos, lembra mais um chalé suíço do que o estilo arquitetônico de madeira que busca imitar.

Grande parte da vida adulta de García Márquez foi passada no México, onde o escritor ganhador do Nobel morreu, aos 87 anos, no dia17 deste mês. O embaixador colombiano no México afirmou que suas cinzas seriam trazidas para a Colômbia, embora não se soubesse onde ficariam.

Os cataqueros, como são chamados os habitantes de Aracataca, esperam que as cinzas sejam trazidas para cá, talvez para serem guardadas no museu.

“Esse é o clamor de todos os cataqueros”, disse Fabián Marriaga, de 60 anos, um advogado cujo sogro, Luis Carmelo Correa, foi um antigo amigo de García Márquez. Ele contou que o escritor telefonava para seu sogro enquanto escrevia, para conferir detalhes sobre sua casa de infância.

“Estamos numa grande cruzada para conseguir que parte de suas cinzas venham descansar aqui”, explicou Marriaga.

No início do século XX, Aracataca era uma cidade em expansão dominada por empresas norte-americanas de bananas. Hoje é um local poeirento e quente com cerca de 40 mil moradores. Sua população foi ampliada nos últimos anos por milhares de refugiados da violência endêmica da Colômbia, desalojados por grupos guerrilheiros ou, especialmente nesta região, grupos paramilitares de direita.

A cidade é o oposto de um local turístico. Além do museu e de um salão de sinuca chamado Macondo Billiards, não há muitas iniciativas para se aproveitar de sua conexão com o famoso escritor. Não há canecas com a foto de García Márquez, chaveiros, lojas de camisetas com o tema de Macondo.

Rafael Jiménez, um poeta local que ajudou a iniciar o museu, deseja criar uma “Trilha Gabo”, em homenagem ao escritor apelidado de Gabo, e levar turistas a marcos históricos de sua vida e obra. Mas até agora isso é apenas um sonho. Sua preocupação é que as vistas importantes da cidade e o que restou de seu personagem original estejam rapidamente sendo destruídos.

As velhas casas de madeira, feitas com amplas tábuas de cedro, com grandes quartos, pé direito alto e telhados inclinados para afastar o calor, estão desaparecendo rapidamente, substituídas pelas casas baixas de bloco que são comuns na região. Ele apontou um local onde uma grande casa de madeira foi derrubada para a construção de um salão de sinuca e bar com ar-condicionado.

“Ninguém está cuidando da paisagem cultural”, argumentou Jiménez. “Com o tempo, vamos acabar nos parecendo com qualquer outra cidade”.

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