O ócio criativo de Lya Luft

Em “O Rio É Um Tempo que Corre”, escritora gaúcha critica endeusamento da juventude e reflete sobre o tempo

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Ofício. Lya Luft participa do Sempre o Papo hoje à noite e garante que continua escrevendo apenas o que sente, nunca o que é obrigada
record/reprodução
Ofício. Lya Luft participa do Sempre o Papo hoje à noite e garante que continua escrevendo apenas o que sente, nunca o que é obrigada

Enquanto dirige rumo a sua casa de campo em Gramado, na Serra Gaúcha, em plena manhã de sexta-feira, a escritora Lya Luft, 75, não deixa dúvidas de que tem mais tempo aproveitável hoje, do que em toda a sua juventude. “Eu posso colocar meu telefone no viva voz, dar essa entrevista, seguir para o meu descanso e trabalhar meu ócio criativo em paz. Isso tem um valor revolucionário que os jovens parecem não querer viver hoje”, diz Lya. O entendimento da passagem do tempo como um aspecto saudável e necessário é o objeto de estudo do novo livro da escritora gaúcha, “O Tempo É Um Rio que Corre” (Editora Record), que ela apresenta nesta segunda à noite do Palácio das Artes, dentro do projeto Sempre Um Papo. Depois de publicar 14 obras em formato de romance e contos, “O Tempo É Um Rio que Corre” segue a linha de não-ficção, que dialoga diretamente com o leitor em reflexões pessoais, como a escritora tem feito desde o elogiado “Rio do Meio”, lançado em 1996, repetindo a dose em sua obra mais reconhecida no meio editorial e comercial, “Perdas e Ganhos”, de 2003. O livro é dividido em três capítulos que rimam com a analogia aquática do título: Àguas Mansas, Maré Alta e A Embocadura do Rio, que remetem à infância, juventude e amadurecimento da vida. Ao contrário de romances que abrigam personagens explosivos, como em “O Tigre na Sombra” (2012), que nada têm a ver com a personalidade da autora, Lya usa um relato essencialmente pessoal em “O Tempo É Um Rio que Corre”. Exemplos são passagens da sua infância na pequena cidade de Santa Cruz, um dos núcleos da colonização alemã no interior do Rio Grande do Sul. “Eu era muito curiosa quando criança, queria saber o porquê do sol nascer, do barulho de uma cachoeira. Quis mostrar com o livro como o tempo passava devagar naquela época”, relembra. A parte mais crítica do livro costura lembranças da juventude da escritora com uma visão ácida sobre a relação entre a mocidade contemporânea e tempo. Em um tom de confidência, a autora repudia o bordão “no meu tempo” e bate forte nos hormônios de uma geração jovem que tem pressa, mesmo sem saber aonde quer chegar. “O endeusamento da juventude é muito primário e leva a um sofrimento inútil, porque a juventude tem muitos problemas, como as pressões sociais de você ter que fazer isso, você tem que cheirar cocaína, fumar um baseado, escolher uma profissão. Não é a melhor fase da vida. Existe uma maturidade espetacular anos à frente, esperando para ser vivida”, bate o martelo. Com um olhar de desconfiança relutante para a morte, a miséria, a política e a economia do país – temas que hoje rondam a vida e as crônicas quinzenais da escritora –, Lya Luft diz que até hoje se apaixona todos os dias. “Me apaixono desde a infância pelo ser humano, tão complicado e às vezes tão enrolado, mas tão maravilhoso”. Lançamento duplo. O engenheiro e escritor Vicente Britto Pereira, o marido de Lya Luft há 11 anos, também vai apresentar seu último livro, nesta segunda, no Sempre Um Papo. “Ensaios de Uma Embriaguez”, lançado ano passado pela editora Record, sofre influências nítidas de Lya Luft, em uma narrativa baseada na experiência pessoal que também dialoga com o leitor. Vítima do alcoolismo durante vários anos, Vicente Britto escreveu o livro uma década depois de se livrar do vício. Sem análises de especialistas ou indicações médicas para a doença, “Ensaios de Uma Embriaguez” é inteiramente marcado por passagens doloridas, que parecem uma espécie de diário escrito não como orientação sobre o problema, mas sobretudo como um desabafo de sentimentos que muitas vezes não vêm à tona nos canais de informação. “Não dei respostas para tratar o alcoolismo. Apenas aponto um olhar singular e diferencial meu sobre o tema e sobre o que o alcoólatra sente. Só posso dizer que não há recuperação sem uma dose muito alta de realismo”, avalia ele.

Agenda Evento. Lya Luft participa do Sempre Um Papo ao lado de Vicente Britto, nesta segunda, às 19h30, no Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro).

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