Estradeiro

iG Minas Gerais |

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A música sertaneja toca ao fundo entre as conversas que cortam as janelas da lanchonete e restaurante na beira da movimentada rodovia. Motoristas de caminhão são maioria, embora o local fique próximo à entrada de uma cidade mineira e muitos moradores e viajantes de carros pequenos também frequentem o lugar. Em um canto um grupo de caminhoneiros troca prosa sobre cargas que levam e buscam, a situação precária das estradas, defeitos em seus caminhões e outros assuntos corriqueiros. Alguns deles brincam disputando vantagem sobre o menor tempo gasto para percorrer longas distâncias. Em outro canto o motorista dá notícias à família pelo celular sobre a resposta que espera de uma carga a transportar. Ainda não sabe se será para Jequié ou Feira de Santana, na Bahia; ou Garanhuns, em Pernambuco. Enquanto isso fica ali na expectativa, a carreta estacionada no pátio do posto. O depósito bancário que foi feito no caixa eletrônico no fim da tarde é a preocupação de outro caminhoneiro, que fala com o filho ao telefone a milhares de quilômetros de distância. Dá orientações detalhadas sobre o que pagar com o dinheiro e recomendações sobre a parte que deve ser dada à mãe. Ali, no restaurante do posto ou no caminho do banheiro do banho ou no pátio do estacionamento, esses caminhoneiros criam amizades estimuladas pela cumplicidade da profissão. Em intervalos maiores ou menores estão sempre se cruzando, e na convivência entre si buscam remediar, mesmo que parcialmente, o sentimento da ausência da família e da casa aonde apenas estimam o próximo dia em que irão novamente chegar. Único homem de uma família de quatro irmãs, que nunca se casou e diz não querer rabicho, Josias afirma com uma ponta de orgulho que gosta mesmo é de viajar e que depois que o pai e a mãe morreram não sente tanta falta assim de estar em sua cidade. Quando fala disso ele dá marcha a ré no tempo para lembrar que seu primeiro emprego e por muitos anos foi de ferroviário. Daí tomou gosto a viajar pelas estradas de ferro, seja durante o dia ou nos noturnos. Hoje, Josias pensa e fala cada hora uma coisa. Parece que isso está ligado ao humor com que ele acorda. Às vezes reclama bravo por o governo ter praticamente acabado com o transporte por ferrovias, que, ele garante, “era uma beleza, sem nenhum de todos esses problemas das estradas”. Em outros momentos se gaba de sua nova profissão, de pisar no acelerador e decidir sozinho o rumo de sua vida. O ruim é quando ele vê os acidentes, as tragédias com os colegas. Nessas horas tem mais saudades das ferrovias, viagens tranquilas, quase o tempo todo no meio do mato, cortando as veredas. Acidentes também acontecem nos trilhos, mas com raridade sem comparação. O normal ao longo das ferrovias era o cenário bucólico e as pessoas mais predispostas ao convívio simples, ofertas de quitandas e cafés das garrafas nas sacolas, rapadura e biscoito de goma. Quando perdeu o emprego de ferroviário, ele usou o dinheiro de indenização pra tirar carteira de motorista de caminhão. Começou a trabalhar de empregado, devagar foi aprumando o bolso e, com o dinheiro de uma pequena herança, mais um pouco de ajuda das irmãs e ainda um resto de financiamento que pagou com as viagens, comprou sua própria carreta. Dia desses, ao reparar num andarilho que seguia na beira da rodovia, Josias concluiu que ele próprio, de uma outra forma, era como aquele, por tanto gostar de viver na estrada transportando cargas. Fim de tarde, para no posto mais próximo, toma seu banho e depois do jantar senta na roda de seus colegas para contar e ouvir casos. Quando se cansa, diz que deu sono, se despede e vai para a boleia, onde a cama é melhor que muito colchão de casa. Tem seu rádio pra ouvir e o céu pra mirar.

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