Arte elevada à última potência

Segunda edição belo-horizontina do File, Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, começa nesta segunda (28) no Oi Futuro

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Divulgação
"Syn-Phon", do artista turco Candas Sisman, cria relações entre sons de instrumentos musicais

Quando foi criada no século XIX, a fotografia – impressa e revelada – era o produto final. A obra em si. Com a digitalização recente, porém, a imagem passou a ser o princípio de uma série de programações e modificações, recortes e fundições em mil outras imagens, de uma potencialidade muito mais complexa. A fotografia passou a ser a obra prima.  

“Agora, você imagina que isso aconteceu em todas as áreas – moda, maquiagem, arquitetura, design, culinária – que antes eram analógicas e construíram softwares e simuladores que permitem criar de maneira altamente potencializada”. É esse ambiente de possibilidades criativas ilimitadas que Ricardo Barreto, coordenador do File – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica – usa para descrever a arte eletrônica que seu evento traz desta segunda até 1º de junho ao espaço Oi Futuro.

Realizado em São Paulo desde 2000, o festival tem uma ‘edição degustativa’ em Belo Horizonte pelo segundo ano seguido. Na capital paulista, o File engloba um festival de música eletrônica, outro de animação, outros ainda de game-arte, videoarte, midia-arte, arte interativa, um simpósio e workshops.

Em 2013, a coordenadoria do evento trouxe um recorte com jogos e obras que usavam tablets como plataforma de interação. Neste ano, eles apresentam 54 animações e seis instalações – três delas inéditas – de artistas brasileiros e internacionais.

“O resultado do ano passado superou as expectativas, e a gente queria trazer a versão maior para BH este ano, mas ainda não foi possível”, justifica Barreto. Para explicar o recorte das obras selecionadas para a edição mineira, o coordenador conta que o festival não acredita em curadoria ou eixos temáticos tradicionais, que eles associam à arte moderna ou contemporânea, preferindo trabalhar com um “recorte fractal”.

“Fractal é quando você tem uma parte que, de alguma maneira, está mostrando o todo de uma coisa”, elabora. Segundo ele, a rede e as artes com tecnologia têm uma complexidade enorme hoje em dia. “Por isso, dentre as mais de mil inscrições que a gente recebe de todo o mundo, tentamos pegar um aspecto e um recorte que represente todas essas facções que estão sendo desenvolvidas. É a ideia do Deleuze de multiplicidade sem unidade”, completa.

Composição tátil. Assim, a edição belo-horizontina de 2014 conta com exemplares das mais diferentes vertentes da linguagem eletrônica. Da arte cinética, vem o “Túnel” criado pelos brasileiros Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti, que reage aos movimentos de quem o percorre. E reduto nacional do gênero, Minas Gerais marca presença com a obra de videoarte “Escadaadentro”, criada pela dançarina Thembi Rosa, em parceria com Lucas Sander e Paula Santos.

“É um trabalho de site specific que ela criou para a escadaria da sala Maristela Tristão “do Palácio das Artes)”, conta Barreto. Ao ver o registro, o File propôs aos criadores construir uma nova escada, que pudesse ser deslocada e libertasse a obra. “Virou um site não specific e o trabalho ganhou uma conotação um pouco mais ampla. Ficou um novo trabalho que a Thembi nem viu ainda, mas ela ficou super contente”, considera.

Um dos grandes destaques da exposição é a instalação inédita “Simulacra”, da polonesa Karina Smigla-Bobinski. A artista apresenta quatro TVs em uma disposição de 360º e, ao manipular lentes de aumento diante dos monitores, o público é surpreendido por macabras aparições de mãos, pés e fios de cabelos que emergem do branco. “É como se você fosse um Sherlock investigando pistas de um corpo que é virtual”, brinca o coordenador.

E o próprio Barreto coassina com Maria Hsu o exemplar de robótica do festival, “Martela”. “Nós pensamos se seria possível fazer uma composição tátil, similar a uma composição sonora que vira música, que criasse uma linguagem de relações formais para que nosso corpo pudesse entender uma fruição artística do tato”, explica.

O resultado é um robô, construído com a ajuda dos alunos da Escola Politécnica da USP, que lembra a forma de uma cama e é formado por 27 motores. O visitante deita sobre ele e recebe os estímulos a partir da ação de outra pessoa que tecla os sensores.

“Parece massagem, mas não é”, brinca Barreto. Assim como uma composição musical, ele e Hsu criaram partituras que o visitante pode “tocar” ou criar sua própria. “O que nos interessa é ver se nosso cérebro consegue construir relações formais através do tato, que é um sentido deixado de lado artisticamente. Mas mesmo nós que experimentamos algumas vezes ainda não estamos preparados sinapticamente para perceber isso. Ficamos tentando fazer relação com o som ou a visão”, ele divaga, sobre seu futuro tão próximo e tão distante.

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