Longa jornada pelas trilhas da divagação

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Panorâmica interna de ônibus quase cheio em bela tarde de primavera brasileira
Sardinhas retocadas sobre fundo azul
Panorâmica interna de ônibus quase cheio em bela tarde de primavera brasileira

Oito horas da manhã. Entrei no ônibus vermelhinho, o mais barato cata-jeca dos dois que circulam no meu subúrbio. O outro, o verdão, tem simulacro de ar condicionado, com os usuários se empenhando em transmitir doença aos vizinhos. Ônibus fechado é como sala de espera em hospital de doenças contagiosas: entrou, dançou. Não era o caso. Lotado, manhã quente, as janelas estavam abertas, vírus e bactérias dando piruetas no vento. Sentar? Nem pensar! Embora, pela lei, idosos, gestantes e deficientes tenham preferência e até assentos reservados, todos os sentados olhavam para fora e, mais um necessitado se aproximasse, com mais firmeza olhariam: linda paisagem, não é? Casebres e botecos miseráveis desfilavam sua tristeza. Ou seu tédio. Ou sua decadência. PÉS SUJOS Se pela pegada se conhece o gigante, também se conhece o pobre. Pé de rico é cuidado, limpo, liso, bem calçado. Pé de pobre se mete em sandália havaiana de tiras tortas e ali os dedos brigam com a sujeira acumulada, cada unha rindo da imundice da outra. Diante de mim, um casal bem gordo, que os politicamente corretos exigiriam chamar de obeso, cochilava. Gordalhufos, as mãos repousavam nos ventres montanhosos, entre suspiros de doce e langorosa preguiça. Mas as unhas do dedão de cada qual, meu Deus do céu! Pareciam cortadas a marreta, de esquisitas que eram. Largas como cabeça de sapo, sujas como botina no lixo, escuras de tantos dias sem banho acumulados. Feiura pouca é bobagem. A COR DA PELE Sem nenhuma razão, depois de reparar bem – eu estava em pé, lembra? – comecei a contar os passageiros brancos: um, dois, três, quatro, cinco, seis... e acabou. Quantos amontoados na lata de sardinha? Cinquenta ou sessenta, tantos sentados, tantos em pé, pendurados nas barras metálicas lambuzadas de gordura antiga. Quase todos os passageiros são novos, que velho não aguenta o tranco do batente duro. Mas brancos, mulatos, pardos e negros dividem democraticamente o espaço dos pobres. Dúvida: será que demonstro preconceito começando a frase com branco e terminando com negro? Sei que preto não se pode mais usar, exceto para cor e bicho, mas quem sabe também está proibido hierarquizar? Sugiro que se imprima, catados como piolhos nas mil leis que tratam de discriminação, os diversos parágrafos que criminalizam o politicamente incorreto. Só assim se poderia escrever sem medo de punição. SONOLÊNCIA Oito horas da manhã – agora já são oito e dez –, e baixa uma soneira geral, ou quase. Quem sabe o colchão duro, polvilhado de pulgas sedentas? Talvez o samba do vizinho, mais alto do que a lei permite, só que ninguém liga para leis de urbanidade. Cabeceiam muitos, alguns babam. Seria vergonhoso babar caso acordado, mas o sono permite. A mocinha até que bonita está de boca aberta, e baba. A outra – deve ser irmã, prima, vizinha – lê notícias no celular. Serão as fofocas da noite anterior. Isso significa que alguma coisa mudou: não é mais o rádio madrugador a fonte de notícias, ou não só ele. Progredimos? Até certo ponto, já que se passou da cultura auditiva para a cultura letrada. Progredimos? Repito a pergunta por que não sei a resposta. MATURIDADE Quatro ou cinco passaram dos quarenta. Um ou dois, dos sessenta. Todo o resto paira naquela idade irreal e fantasmagórica que vai dos vinte aos trinta. Irreal, porque enquanto se rala, se sonha. Quase sempre sonhos irrealizáveis. Fantasmagórica porque, essa sim, é a idade da fantasia, das alucinações, das cólicas e dos refluxos, as mil doenças da ansiedade. Segue o vermelhinho. Agora, às oito e tanto, a ida. Lá pelas dezoito e muito será a volta, essa muito pior, depois do dia duro. Faxina, balcão, frituras, embalagens, sobe-e-desce, leva-e-trás, empregos sem futuro nem salário decente. Quando chegar a idade madura, se chegar, alguns terão subido na vida e terão carro e prestação a perder de vista. Outros desistirão, horas e horas na frente do barraco vendo cachorros brincando de fazer neném, gatos se apalpando, adolescentes barrigudas carregando o recém-nascido com cara de quem não está nem aí. Quem pariu Mateus que o embale. CARRO PRÓPRIO Dos sessenta, cinquenta e oito reservam uma merreca mensal para chegar ao sonho mais alto, turistas escalando o Everest da vida de pobre. Todo mês examinam a poupança, como quem na roça apalpa bunda de galinha para ver se tem ovo. Hoje não tem ovo. Poupança só cresce de mês em mês. Dinheiro não dá em árvore. De suas janelas, através das quais sussurra o vento que embala as palmas do coqueiro, olham lá fora – inveja doendo no branco do olho – quem está ao volante. E, colocando-se no lugar do motorista, esquecem o ônibus, o emprego, o ir-e-vir de todo santo dia, a casinha pobre, enquanto aceleram como em corrida valendo milhões. A DURA LABUTA Não chores, meu filho, que a vida é luta renhida, viver é lutar. A vida é combate, que aos fracos abate, que aos fortes, aos bravos, só pode exaltar. Etc. Quem cochila em grupo, cochila melhor. São oito e vinte e tenho de descer. Alguns desceram antes, outros subiram. O rebanho se renova, mas não se nota. Farinha do mesmo saco. Filas e filas de dezenas e centenas de ônibus rezam a mesma ladainha diária e sem sentido. Lá dentro, as mesmas sardinhas. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Ou não mudam. A lentidão das horas que passam repete a lentidão dos dias que passam que repete a lentidão das semanas que passam que repete a lentidão dos meses e dos anos. Que passam. Tudo passa, só não passa a dor de ter vivido. Ou passa? Quem foi mesmo que escreveu isso, algum dia, para encantar alguma namorada arredia?

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