Poeta do cinema do mangue

Magazine entrevista o roteirista pernambucano Hilton Lacerda; autor de “Amarelo Manga”, ele fala sobre seu primeiro longa como diretor de ficção

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Hilton Lacerda - roteirista e diretor pernambucano
Fábio Nascimento
Hilton Lacerda - roteirista e diretor pernambucano

O roteirista de “Baile Perfumado” e “Amarelo Manga” veio a Belo Horizonte como palestrante do TEDxBH. Antes da conferência, o pernambucano Hilton Lacerda bateu um papo com O TEMPO ao telefone sobre o evento, a recepção a “Tatuagem”, seu primeiro longa como diretor de ficção, a evolução do polo de cinema de Recife e o momento crucial em que se encontra a filmografia brasileira.

 

O que você acredita que um evento como o TED pode acrescentar para o cinema nacional e os desafios que ele enfrenta hoje? Uma porta como o TED é muito excitante no sentido de manter acesa a perspectiva de que é possível fazer política e militar em prol de algo que a gente acredita. Lançar um pouco de lenha na fogueira. E cumpre um papel para quem está propondo a discussão, de colocar algumas das suas ideias em xeque. No meu caso, gosto de pensar a perspectiva de manter uma economia criativa voltada para a elaboração e construção de linguagem, principalmente cinematográfica. Vale propor isso de maneira investigativa e intuitiva e provocar as pessoas a fazer uma reflexão mínima. Não dá para vislumbrar até onde vai essa reflexão. Mas são as armas que a gente tem. Existe um universo de gente querendo pensar e é necessário que haja parcerias como essa para que a conversa seja alimentada sempre.   Pernambuco é o principal polo criativo do cinema brasileiro hoje. Você pode ser considerado um pioneiro dessa cena. O que mudou desde quando você começou? Teve um robustecimento da prática. Quando um filme é feito em determinado lugar no Brasil, parte-se do princípio de que foi um acidente de talento e insistência. Mas quando o “Baile Perfumado” veio em 1996, ele trouxe outras características, tanto na forma de fazer quanto no impacto grande que foi capaz de provocar naquele momento em que a filmografia estava beirando o zero. Teve um encontro muito feliz do cinema com o projeto musical que acontecia em paralelo, que acabou virando uma enxurrada represada há muito tempo e articulou um processo de produção em Pernambuco. Isso deu credibilidade aos artistas que estavam trabalhando de dar continuidade a esse processo. Foi essa insistência que veio a vingar no cinema contemporâneo e que, junto com a possibilidade de fazer com um olhar muito específico, independente de discursos oficiais, que deu o frescor desse cinema. Isso se reflete na multiplicidade de olhares e assuntos plurais de um projeto que é comunitário, de pessoas muito unidas, mas que resulta de discussões e divergências e da ansiedade criativa de cada uma delas.    Você já escreveu para alguns dos principais diretores brasileiros contemporâneos. Como você aborda a elaboração de um roteiro para outra pessoa e um que você mesmo vai filmar? Existem dois casos. Um é de pessoas de quem eu tenho uma proximidade maior que me procuram. E o roteiro é construído como um projeto realizado numa confiabilidade muito grande. Outra é pessoas que te convidam, mas não são tão próximas. Você se afasta um pouco. O exemplo mais claro é o “Estamos Juntos”, do Toni Venturi, que eu acho um resultado muito interessante, mas não pude participar de maneira tão invasiva como eu faço nos outros projetos. O interessante de escrever para outros é a coisa colaborativa de descobrir qual é o filme e onde você quer chegar com ele. Não é uma rota de colisão, é um encontro, e o que interessa é o filme. Trabalhar próximo dos diretores é mais confortável porque dá para resguardar um pouco da visão do roteirista. Quando escrevo um roteiro para mim mesmo, a responsabilidade é outra porque você estabelece melhor suas crenças na narrativa. É como se a escrita fosse o primeiro passo para a câmera. Teu olhar, tuas reflexões abstratas passando para uma manifestação icônica, que é a imagem, o que redobra os riscos. Sua defesa passa a ser nenhuma. Não posso culpar ninguém pelo que não foi realizado.    “Tatuagem” venceu o Festival de Gramado do ano passado. Ainda assim, grande parte das manchetes destacava as cenas de sexo entre dois homens. Como você encara isso em 2014? Existe uma certa reatividade em relação a isso, principalmente por uma coisa chamada mercado. É a ele que isso preocupa porque existe uma ideia de que o segmento gay é muito específico. Para mim, isso de fato nunca existiu. O gênero colocado como narrativa diz mais das minhas expectativas como escritor do que tentar colocar isso como uma polêmica, que para mim é espantosa que ainda exista em 2014. O que me interessa é a manifestação do gênero e da sexualidade no corpo como um lugar de mudanças. Mas essa reatividade também tem a ver com a ocupação do espaço. Você incomoda menos quando não ocupa espaço.   O grande desafio do filme é equilibrar o romance entre os dois protagonistas e o retrato maior de uma cena cultural e um momento histórico. Como balancear essas duas histórias? O interessante para mim é que a narrativa estivesse comprometida com coisas bastante contemporâneas. Não bastava constatar um fato. Precisa ter uma discussão por trás. Existia uma experiência sensorial afetiva daquele momento histórico representada na figura do filho, Tuca, que tem a minha idade naquela época. Mas também havia as possibilidades acontecendo naquele momento em que o Brasil saía do milagre econômico, ao mesmo tempo em que começavam as negociações para uma certa abertura política e um afrouxamento do golpe. É essa visão afetiva misturada com a possibilidade política que me fizeram parar naquela janela de tempo específica.   Qual foi o maior desafio nessa experiência como diretor de ficção? Eu tenho um fascínio por set, o que é raro para um roteirista. Fico o tempo todos nos sets dos meus filmes com o Cláudio \[Assis\]. Minha maior dificuldade foi o momento de desligamento. É quase depressivo ter que se afastar de uma coisa que você passou tanto tempo envolvido e, de repente, foge de você. É um momento extenuante, em que ele não está mais sendo lançado e está em cartaz em poucos lugares. É como se ele estivesse virando adolescente e não precisasse mais de você. Dá um certo orgulho, mas também uma tristeza.   Como você enxerga a produção nacional atual? É melhor, mais animadora do que quando você começou? Não posso nem comparar porque a produção e os interesses hoje são muito maiores. A gente começou a fazer cinema porque era um espaço que não estava sendo ocupado por ninguém. Hoje, existe uma coisa muito grave que é essa ocupação massiva do que eu considero comércio com filme. Poderia dizer que há lugar para todos, mas não tem. O Brasil poderia ter um bom mercado para filmes médios, mas não consegue porque as janelas desses filmes são monstruosas. O “Tatuagem” e “O Som ao Redor”, que fez 100 mil espectadores, são consideradas bilheterias excelentes hoje. Em 1997, o “Baile Perfumado” fez 150 mil com nove cópias. É uma ocupação muito desigual, muito covarde. Cabe a nós quebrar isso. Ou a gente se rende ao mercado e é escravizado pela narrativa dessa produção, ou se reinventa como possibilidade criativa, de linguagem e de cultura. É um momento de provocar essa reeducação do olhar, de reocupar os espaços. Nem que a gente tenha que reinventá-los.   Quais seu próximos projetos? Estou escrevendo dois roteiros com a Ana Carolina Francisco. “Big Jato”, adaptação do livro do Xico Sá que o Cláudio Assis deve começar a filmar em agosto. E “Juliano Pavollini”, adaptação de uma obra do Cristóvão Tezza que deve ser a estreia do Caio Blat na direção. E estou trabalhando em algumas séries de produção mais regional, com umas propostas fora do padrão para chacoalhar a linguagem televisiva. Não sei se é possível. Mas é necessário, para não ficar se repetindo tecnicamente.

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