Rir para não chorar

Série “Pé na Cova” usa humor ácido para exaltar questões densas e conflitos familiares comuns no cotidiano

iG Minas Gerais | luana borges |

Crítica. Texto de Miguel Falabella faz uso de ironias para propor uma reflexão, além de entreter
tv globo/divulgação
Crítica. Texto de Miguel Falabella faz uso de ironias para propor uma reflexão, além de entreter

A cada temporada de “Pé na Cova”, a melancolia ganha mais espaço. Apesar de ser declaradamente uma série de humor, a graça é pontual. E, geralmente, vem amparada por uma crítica nas entrelinhas. Ácido e repleto de ironias, o texto de Miguel Falabella não busca o entretenimento meramente para fazer rir. Pelo contrário. É explorando o estereótipo de figuras que estão à margem da sociedade que a produção instiga reflexões a cada terça-feira. É comum que, depois de uma piada feita por Ruço, protagonista de Falabella, o próprio personagem lance mão de um comentário pertinente para embasar o que disse antes. Nada está ali à toa. Nem quando o dono da funerária xinga alguém sem qualquer tipo de pudor – mostra que o medo de cair na patrulha do enfadonho politicamente correto passa longe de “Pé na Cova”.

Mas o que fica mais evidente na terceira temporada é de fato um clima de tristeza. Muito disso se deve à saída de Marília Pêra. A atriz, que interpreta Darlene, precisou se ausentar para cuidar da saúde. A justificativa encontrada pelo autor foi internar a personagem em uma clínica para se tratar do alcoolismo. Não é de se admirar que a falta de uma atriz do quilate de Marília tenha surtido efeito na série. Afinal, as melhores cenas eram divididas entre ela e Falabella. Mas, por outro lado, essa carência teve um resultado interessante: os conflitos entre os personagens se sobressaíram ainda mais. Por isso, sequências densas e com um discurso profundo se tornaram constantes. E ultrapassam até as tiradas cômicas. Volta e meia, Darlene é citada. O que deixa no ar a possibilidade de uma volta, que pode se concretizar caso a atriz resolva seu problema pessoal.

Para suprir um pouco essa lacuna deixada por Marília, Diogo Vilela entrou em cena na pele do Doutor Zolta, responsável por cuidar de Darlene. Amigos de longa data, ele e Falabella demonstram a afinidade artística já conhecida do público de trabalhos como “Toma Lá, Dá Cá”, “Salsa e Merengue” e “TV Pirata”, entre outros.

O elenco também está entrosado como nunca. Desde a primeira temporada, foi possível perceber a entrega dos atores a seus personagens e o cuidado de cada um em representar o tipo bizarro para o qual foi escalado. Mas, desta vez, estão ainda mais azeitados. Talvez a falta de Marília Pêra tenha influenciado para que o grupo se unisse no mesmo propósito: evitar que a série degringolasse. Apesar da ausência da atriz ter sido sentida e ser constantemente lembrada no próprio texto, os atores não deixaram a peteca cair.

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