Dorival Caymmi completaria 100 anos no dia 30 de abril

Nascido em Salvador, o saudoso compositor reinventou o samba e cantou a Bahia inspirado pelos hábitos, costumes e as tradições do seu povo

iG Minas Gerais | Lucas Buzatti |

O bem e o mar.A paixão pelo mar e os temas praieiros marcam a obra do compositor baiano.
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O bem e o mar.A paixão pelo mar e os temas praieiros marcam a obra do compositor baiano.

“A Bahia de todos os Santos já conta com um verdadeiro intérprete de sua música típica – Dorival Caymmi. Ele recolheu motivos na sua terra e aproveitou-se com muita arte e com uma cor local evidente. É um verdadeiro artista, esse Dorival Caymmi. Dono de uma voz bonita, com um admirável poder de expressão”. Assim descrevia a nota publicada no extinto jornal carioca “O Radical”, em 6 de outubro de 1938. Na época, após a primeira apresentação de Caymmi na rádio Tupi, a crítica musical do Rio de Janeiro começava a assimilar a grandeza da música do compositor baiano, que completaria 100 anos no próximo dia 30 de abril.

Nascido em Salvador, Dorival Caymmi conheceu a música ainda muito cedo, conforme conta o filho Dori. “Meu avô tocava um pouco de bandolim, e meu pai se impressionava com a música. A história dele começa com o grupo Três e Meio, que formou com Dodô. Depois, ele começa a compor suas próprias canções e vai tentar a vida no Rio”.

Na capital fluminense, a música de Caymmi começa a ser ouvida nas rádios. A dissonância das canções causava estranhamento aos ouvidos cariocas, tanto pelas letras enxutas como pelos acordes incomuns. “Sempre procurei trazer para a minha música os ruídos da Bahia. Por isso, meu violão tem toque de berimbau e escapa dos acordes perfeitos, quadrados. Meus dedos procuram um som harmônico diferente, esquisito”, explicou o compositor na biografia “Caymmi: O Mar e O Tempo” (2001).

À medida que a música de Caymmi era divulgada nas rádios, novos apreciadores surgiam. Entre eles, a cantora Carmen Miranda, que incluiu “O Que é Que a Baiana Tem?” no repertório de seu filme “Banana da Terra”, de 1939. A repercussão abriu portas para Caymmi na prestigiosa Rádio Nacional, onde conheceu a caloura Stella Maris, com quem se casou e teve três filhos, todos músicos – Nana, Dori e Danilo. A partir daí, o compositor baiano despontou nacionalmente, emplacando sucessos como “Samba da Minha Terra” (1940), “Rosa Morena” (1942) e “Marina” (1947).

O primeiro disco, “Canções Praieiras”, veio em 1954, com temas que marcaram toda a obra de Caymmi, como a rotina dos pescadores de rede, as raízes da cultura africana e o mar da Bahia – que renderia o conceitual “Caymmi e o Mar” (1957). “Ele tinha uma relação de intimidade com o mar. O jeito que ele olhava, o modo como reverenciava Iemanjá e as sereias. Era tudo parte desse sonho de menino. Meu pai era um grande sonhador”, lembra Dori, pontuando que, diferentemente do que se fala, Dorival sabia, sim, nadar. “Ele tomava banho de mar, sabia nadar. Mas não entrava muito na água, mais por uma questão de respeito. Me contam que, quando eu era menino, estávamos na praia do Leblon e uma onda me levou. Minha mãe saiu correndo e se atirou para me salvar. Já ele ficou de pé, olhando firme, compenetrado, pedindo para que o mar poupasse minha vida”.

Dori até hoje surpreende-se positivamente com o pai. “Há pouco tempo, uma senhora me deu um recorte de jornal que mostra uma entrevista em que ele dizia que se preocupava comigo, por sermos muito parecidos. Dizia ‘eu me vejo em Dori’”, se emociona o músico, hoje aos 70 anos. “Digo que não tive pai, tive um herói, uma espécie de Deus dentro de casa. Ficava olhando aquele cara que cantava coisas tão lindas, tão misteriosas. Era um alento, sentar e conversar com ele”.

Outro disco que marca o cancioneiro de Caymmi é “Sambas” (1955), álbum que, à sua maneira única, abriu portas para o que mais tarde seria a bossa nova. “Caymmi é um solitário na música brasileira. Não existe nada antes e nada depois. Todos foram influenciados, mas ninguém jamais conseguiu seguir o mesmo caminho”, pontua Dori. Para a neta Alice Caymmi, a obra de Dorival dividiu águas na música popular brasileira. “Ele foi um artista transformador. Mudou a temática da canção popular e criou uma maneira inédita de fazer e escrever música no Brasil. Ele está presente, hoje e sempre, na veia de todos os compositores brasileiros”, afirma.

O sambista mineiro Dudu Nicácio ressalta o perfeccionismo de Dorival Caymmi. “Ele só acertou. Compôs poucas músicas, mas todas são joias. Não cedia à pressão do tempo, ia na síntese das músicas”. Amigo da família Caymmi, Toninho Horta afirma que Caymmi representa a riqueza cultural do Brasil”. “Ele falou de uma maneira muito doce sobre as belezas da Bahia. Uma música litorânea e deliciosa”, diz o músico mineiro.

Minas Gerais, aliás, também marcou vida de Caymmi. “Minha mãe era de Pequeri e ele amava a cidade. Temos uma casa lá que era seu refúgio no fim da vida. Era ali que ele refletia, ouvia música clássica, respirava e pintava a natureza, os bichos, o carro de boi. O simples”, lembra Dori. “Meu pai não tinha ambições financeiras. Ele se importava em sonhar e ser feliz. É uma pessoa que faz muita falta nos tempos ansiosos de hoje”, conclui.

 

TOP5 CAYMMI

O Concha, canal de música do portal O TEMPO, celebra o centenário de Dorival Caymmi junto com cinco artistas mineiros que revelam suas músicas favoritas. Veja e ouça as listas de Thiago Delegado, Dudu Nicácio, Toninho Horta, Aline Calixto e Geo Cardoso na íntegra, clique aqui

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