Pão da França

iG Minas Gerais |

“Antes, à padaria era onde você mandava a pessoa que trabalhava na sua casa buscar pão. Hoje, ir à padaria é um programa”
Barbara Dutra/ag. fotosite
“Antes, à padaria era onde você mandava a pessoa que trabalhava na sua casa buscar pão. Hoje, ir à padaria é um programa”

O francês Olivier Anquier desembarcou no Rio, em 1979, para um mês de férias, mas a paixão arrebatadora pelo Brasil o manteve aqui. Até o final dos anos 80, foi um modelo de sucesso. Aos 54 anos, ainda arranca suspiros da mulherada. Desde que deixou as passarelas, se dedica à sua maior vocação, a culinária – o cara revolucionou a panificação no Brasil e passou a comandar programas de TV; atualmente, o “Diário do Olivier”, pelo canal GNT.

Olivier, a França tentou invadir o Brasil, no século 16, e não conseguiu. Você conseguiu. Como?

Bom, se você quer chamar de invasão... Eu não chego a esse desaforo (risos). Ao longo dos anos no Brasil, percebi o que eu podia tirar do meu bolso e colocar na balança para participar e ajudar na evolução do país que tinha escolhido como pátria. E foi pela panificação, quando comecei meu trabalho com pão (em 1995, após ter comandado três restaurantes no Brasil, Olivier inaugurou sua primeira padaria, a Pain de France, em São Paulo). Teve difusão nacional, pela imprensa, em vários veículos. Mas na época não havia veículos sobre famosos, celebridades, como hoje. Então, era uma informação considerada séria, até porque o assunto era sério. E foi esse momento particular que me deu uma projeção, que você pode interpretar como invasão, mas vejo mais como uma conquista. A partir deste trabalho, a panificação no Brasil mudou. Antes, a padaria era aonde você mandava a pessoa que trabalhava na sua casa buscar pão. Hoje, ir à padaria é um programa. Participei também da mudança do consumidor brasileiro frente ao produto pão. Minha ‘invasão’, talvez, tenha se concretizado desta forma.

 

Você pretende voltar a viver na França ou adotou o Brasil para sempre?

Tenho 54 anos, 20 anos de França e 34 de Brasil. Além disso, construí tudo aqui: minha família, meus filhos – são grandes, mas são brasileiros –, meu mundo empresarial e minha realidade profissional. Não sei o que será de amanhã, hoje é evidente que eu fico no Brasil. Mas nunca abandonei a França, vou lá umas três vezes por ano. Alimento a mesma relação com meu país de origem e tenho família lá também.

 

Você viaja muito a trabalho. Tirando França e Brasil, onde você seria capaz de morar?

De morar não. Estou muito bem servido no Brasil.

 

Qual a melhor culinária brasileira?

A mineira é, com certeza, uma das mais contundentes. Inclusive, o cotidiano do brasileiro e sua base de preparo de alimentos têm muito de Minas.

 

O que você mais gosta de cozinhar?

O que mais gosto de comer é bife com batata frita. Agora, o prato brasileiro que mais me surpreendeu, que mais me impactou foi o tacacá, da região Norte.  Não há nada parecido no mundo. É delicioso e muito particular em sua composição. Provavelmente, o prato que mais representa o Brasil. A base é um caldo amarelo, que vem da fermentação da mandioca brava. Os índios, os primeiros brasileiros, descobriram como desenvenenar essa mandioca e extrair dela um caldo muito rico, o tucupi. Nele, se coloca camarão seco, que vem da noção de conservação dos alimentos pelos portugueses. E ainda leva jambu, erva da Amazônia, com uma particularidade: quando você come, adormece sua língua, sua boca. É sensacional pra beijar. Então, na sua composição – índios, portugueses e Amazônia – e até na sua cor – amarelo do caldo e verde da folha – este prato é a essência do Brasil.

 

A França ainda tem a melhor cozinha e os melhores vinhos do mundo?

Acredito que sim (risos).

 

Vai ser difícil decidir pra quem torcer na Copa, França ou Brasil?

Não vai ser complicado porque vivi isso em 1998. Foi dramático para os brasileiros, mas não pra mim. Já saí ganhando por ver, no meu país, a final com a minha seleção ‘de sangue’, a França, e a seleção do meu coração, do país que eu escolhi, o Brasil. Naquela altura do campeonato, o resultado não tinha importância. Agora, estou torcendo pela recíproca!

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