De Pernambuco para Minas

Grupos percussivos estudam a música do maracatu e difundem a cultura popular de Recife em terras mineiras

iG Minas Gerais | LUCAS BUZATTI ESPECIAL PARA O TEMPO |

Baque de Mina
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[NORMAL_A]Sábado, 11h30. Sentados em roda, no pátio do Centro Cultural São Bernardo, mais de cem alunos escutam, atentos, aos ensinamentos lúdicos e didáticos de Daniela Ramos, diretora artística do grupo Trovão das Minas. Nas oficinas gratuitas, que começaram em março, é possível perceber os mais ansiosos controlando a vontade de pegar nos instrumentos característicos do maracatu de baque virado – alfaia (bombo), caixa, agbê (xequerê), ganzá (mineiro) e gonguê (ferro).

De fato, é difícil ignorar o peso e a beleza da música do maracatu de baque virado. Tanto que, de 2012 para cá, Belo Horizonte ganhou quatro novos grupos percussivos que estudam a música da manifestação popular mais emblemática de Pernambuco – “que tem registros que datam de 1614”, conforme conta Walter Ferreira de França, secretário e mestre de percussão da Nação Estrela Brilhante de Recife, uma das mais premiadas e estudadas nações de Pernambuco.

Foi, inclusive, através da Nação Estrela Brilhante que o maracatu de baque virado veio parar em Minas Gerais. Há 14 anos em atividade, o grupo Trovão das Minas foi formado pelo percussionista Lenis Rino, que apaixonou-se com a Estrela Brilhante ao visitar Recife. Desde então, o grupo estuda e difunde o maracatu por meio de oficinas e arrastões (como são chamadas as tocadas de maracatu na rua).

À frente do Trovão das Minas há cerca de cinco anos, Daniela Ramos ressalta as diferenças entre grupos percussivos e nações de maracatu. “Somos um grupo de percussão que estuda o segmento musical do maracatu de baque virado. Para ser uma nação, tem que ter o culto religioso. O maracatu vem dos terreiros de xangô pernambucano, as nações têm que ter calungas, que são bonecas que representam entidades, orixás. Existe uma diferença fundamental, que é esse compromisso com a religião”.

Segundo grupo mais antigo de Minas, o Maracatu Lua Nova completa 12 anos em 2014 e é mais ligado às tradições do candomblé. “Fazemos um maracatu mais próximo do original, do Recife. Temos, além da percussão, os uniformes, a ala de catirinas, a ala de baianas, e a nossa calunga, que é Princesa Dona Luzia”, afirma André Salles Coelho, fundador do grupo. Apesar do laço com o candomblé, não há restrições para participar do Lua Nova, diz André. “Quem quer tocar ou dançar conosco é sempre bem-vindo. Não há qualquer restrição de credo, cor, classe ou coisa parecida. O que pedimos é somente a entrega na cultura popular”, explica André.

Celso Soares conhece bem o compromisso com o maracatu. O músico foi diretor artístico do Trovão das Minas por muitos anos, até que surgiu a vontade de montar seu próprio grupo: o Baque de Mina. Formado apenas por mulheres, o grupo arrastou multidões nos carnavais de rua de Belo Horizonte em 2013 e 2014. “A ideia é inverter papeis, mostrar a força da mulher no batuque e dos homens na dança”, explica Celso, que também coordena o Tamaracá, em Paris, na França.

A veia política também é a característica principal do Bombos de Iroko, grupo que surgiu em 2012, na Universidade Federal de Minas Gerais. “Sempre tentamos, através do som de resistência do maracatu de baque virado e das ações políticas, intervir nos problemas que causam as desigualdades sociais, participando de atos e manifestações políticas”, conta Clayton de Oxaguiãn, fundador do Bombos de Iroko.

Já os grupos mais recentes a surgirem na cidade têm as experimentações musicais como foco. Após coordenar projetos sociais voltados para o ensino do maracatu no bairro Alto dos Pinheiros, o músico e capoeirista Marcos Ligeirinho decidiu criar, no ano passado, algo mais autoral, com o Pata de Leão. “Tocamos maracatu de baque virado, mas também criamos grooves e levadas próprias”, conta.

A ideia de diversificar o repertório também levou Daniel Melão a fundar o seu próprio grupo, o Macaia. O batuqueiro coordenou, entre 2006 e 2013 o grupo O Bloco, em Viçosa, até que veio para Belo Horizonte para viver de música. Menos apegado ao tradicionalismo, o grupo estuda a Nação Estrela Brilhante e a Nação Porto Rico, “rivais” que alternam primeiro e segundo lugares no Carnaval de Recife há anos. “Sou Estrela, mas acho que a cultura não deve ter limites”, pontua.

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