Obra inédita de Alair Gomes

Ensaio “A Não História de um Chofer” sai na nova edição da revista “Zum”; fotógrafo foi assassinado em 1992

iG Minas Gerais |

Fotonovela. Fotógrafo Alair Gomes passou dias registrando a rotina de um chofer lavando o carro dos patrões no quintal
alair gomes/reprodução
Fotonovela. Fotógrafo Alair Gomes passou dias registrando a rotina de um chofer lavando o carro dos patrões no quintal

São Paulo. De sua janela no Rio, Alair Gomes fotografou belos garotos na praia de Ipanema, cerca de 20 mil imagens que o tornaram famoso depois de sua morte – ele foi estrangulado por um de seus modelos, aos 70 anos, em 1992, um caso nunca investigado.

Mas Gomes também voltou suas lentes para o quintal de uma casa ao lado, fotografando o chofer dos vizinhos enquanto lavava uma Mercedes. Em 48 fotografias, o artista criou uma fotonovela que registra em chave erótica a relação entre homem e máquina. O ensaio inédito, realizado em 1975 e guardado nos arquivos do artista doados à Biblioteca Nacional, no Rio, foi publicado pela primeira vez agora em nova edição da revista “Zum” (Editora Instituto Moreira Salles, R$ 49,90, 184 págs.), que sai hoje.

São flagras de um rapaz de shorts encerando o carro dos patrões, fazendo ajustes no motor e esfregando as rodas. Quando terminava, ele penteava os cabelos e se trocava, vestindo uma camisa, calças sociais e um par de sapatos. “Ele fica insistindo nesse cara, dia após dia, lavando o carro”, diz Thyago Nogueira, editor da revista. “É uma relação erótica não só dele com o chofer, mas também do cara com o carro, um erotismo da máquina e sua potência”.

De certa forma, a série “A Não História de um Chofer” ilustra as ideias de Gomes sobre a fotografia. E amplia o que se sabe sobre o artista que vem ganhando atenção depois de ter uma das maiores presenças na Bienal de São Paulo de dois anos atrás. No caso, Gomes lutava contra a ideia de “instante decisivo” na fotografia, construindo uma narrativa a partir de vários momentos mais banais e menos decisivos. Daí chamar de “não história” o que se passa com o chofer.

Em sua obra, Gomes parece contrapor a imagem de belos rapazes aos tempos violentos da ditadura no país. Era o que o artista chamava de “aceitação desinibida do prazer” como “modo de reagir”, ou o que Frederico Coelho, estudioso da contracultura no Brasil, chama de “busca permanente da beleza incrustada no registro banal”, em ensaio na revista. “Ele mostra que política também se fazia com a reivindicação do prazer”, escreve Coelho. “É uma escolha radical. Sua obra é um espelho invertido e poderoso do hedonismo em tempos de horror”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave