Mais médicos, mais saúde, mais cidadania

iG Minas Gerais |

Há exatamente um ano, quando publiquei o primeiro artigo neste espaço, o Brasil não tinha vivido as manifestações de 2013 por maior participação nas decisões e eficiência do gasto público. O programa Mais Médicos, que vinha sendo pensado há um ano, foi uma das primeiras respostas do governo da presidente Dilma Rousseff à legítima pressão das ruas. Levar médicos para os lugares mais remotos do país, onde cidadãos padecem de males provocados por uma prosaica verminose ou onde não há quem lhes meça a pressão, sempre me pareceu um projeto de validade inquestionável. Mas a reação de parte da sociedade, liderada pelos partidos de oposição, foi dura. Já é história a hostilidade com que um grupo de médicos cubanos foi recebido em Fortaleza. O caráter ideológico de que acusavam o programa era, na verdade, reflexo de uma visão xenófoba. A presidente não recuou e, menos de um ano depois, ânimos serenados, o Mais Médicos é um sucesso. Os brasileiros estão sendo atendidos, compreendidos e se fazendo entender. Por preconceito ou deboche, os críticos diziam que a população mais pobre não conseguiria se comunicar com médicos que não falassem português. Por sua vez, parte dos nossos médicos, que temeram por seus empregos e por seu prestígio, percebeu que os estrangeiros não os ameaçam. Temos médicos bem-formados, de competência reconhecida em todo o mundo e que podem, sim, fazer a opção de permanecer nas cidades médias e grandes. Mas, para assegurar assistência médica aos moradores dos municípios onde esses profissionais não querem viver, foi preciso trazer médicos do exterior – os brasileiros que quiseram mudar para o interior foram os primeiros contratados pelo programa. Junto com os estrangeiros, estão fazendo a diferença nas cidades onde atuam. Todos os médicos solicitados por 480 prefeituras mineiras (a maioria do Norte e do Vale do Jequitinhonha) darão expedientes nas unidades de saúde até o fim deste mês. Serão 1.321 profissionais atendendo quase 5 milhões de mineiros, 11% de todos os brasileiros atendidos pelo programa. É natural que façamos avaliações a partir de nossas referências. Quem carrega no bolso um cartão de plano de saúde ou mora próximo a uma unidade de saúde pública pode até achar que levar médicos a lugares onde não há aparelhos de raio X é desperdício de recursos públicos. Mas para quem vive em Itinga, por exemplo, no coração do Vale do Jequitinhonha, onde os beneficiários do Bolsa Família são considerados “classe média”, ter médico pode ser a diferença entre a vida ou a morte. A chegada de três médicos ao município mudou a realidade da população, sem favor nenhum. O governo apenas cumpriu a Constituição. Por decisão deste jornal, este será meu último artigo. Quero agradecer à direção de O TEMPO, aos seus editores e repórteres, com quem tive a honra de dividir estas páginas, e principalmente aos leitores, que nos permitiram fazer o bom debate. Considerando o período eleitoral, e como faz sistematicamente em todas essas ocasiões, atendendo o seu princípio de isenção, O TEMPO está suspendendo a publicação, a partir da próxima semana, das colaborações de seus articulistas que estão ligados direta ou indiretamente a alguma candidatura, como é o caso do ex-ministro e ex-prefeito Fernando Pimentel.

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