Se você pensa que a primeira batalha foi a de Berna, está enganado

Antes do jogo memorável contra a Hungria em 1954, Brasil fez uma partida histórica contra a Tchecoslováquia

iG Minas Gerais | GABRIEL PAZINI* |

Memorável partida teve três jogadores expulsos e outros dois foram parar no hospital
Reprodução/Facebook
Memorável partida teve três jogadores expulsos e outros dois foram parar no hospital

Quando o assunto é jogo violento em Copa do Mundo, a memória logo puxa duas partidas: a Batalha de Berna entre Brasil e Hungria em 1954 e a derrota brasileira para a Holanda por 2 a 0, vinte anos depois. No entanto, muito antes destes dois jogos, a seleção tupiniquim esteve envolvida em outro duelo violento, este sim, considerado o mais violento de todos os Mundiais.

Foi na Copa do Mundo de 1938, na França, no dia 12 de junho, quando o Brasil enfrentou a Tchecoslováquia no jogo que ficou conhecido como a "Batalha de Bordeaux".

O escrete canarinho enfrentaria os tchecos pelas quartas de final do Mundial, após vencer a Polônia por 6 a 5 na fase preliminar. O adversário tinha batido a Holanda por 3 a 0 e a partida com os brasileiros estava marcado para às 17h, no Stade du Parc Leisure.

O que prometia ser um bom jogo de futebol, entre duas boas seleções e uma distração para o fim de tarde de 19 mil franceses, que naquela época ainda viam o futebol como entretenimento, rapidamente se transformou em uma guerra.

O árbitro húngaro Paul von Hertzka deixou o "pau cantar" dentro das quatro linhas e as jogadas violentas não tardaram a começar. O brasileiro Zezé Procópio foi o primeiro a "abrir a caixa de ferramentas" e foi expulso com apenas 14 minutos de jogo. Ainda assim, quem abriu o placar foi o Brasil, com o espetacular Leônidas da Silva, aos 30 minutos. No entanto, a diferença numérica em campo começou a ser sentida pelo escrete canarinho, e Nejedly, de pênalti, empatou para os tchecos aos 20 minutos da segunda etapa.

É lógico que a pancadaria rolou solta durante todo esse tempo, mas foi só quando Machado e Jan Riha se estranharam que o árbitro resolveu expulsar mais jogadores. Isso foi apenas aos 44 minutos da etapa final. De qualquer forma, a partida terminou em 1 a 1 e foi para a prorrogação, mas o empate persistiu.

Com o regulamento da época, foi marcado um novo jogo para 48 horas depois, afim de decidir quem avançaria às semifinais. É claro que a Batalha de Bordeaux não terminou "apenas" com lances ríspidos e três jogadores expulsos. Dois atletas da Tchecoslováquia foram parar no hospital. O goleiro Planicka quebrou o braço e a clavícula ao chocar-se com o atacante Perácio, enquanto Nejedly, meio-campista, fraturou uma das pernas. Se o jogo terminou empatado na bola - se é quem alguém pensou nisso dentro de campo -, dá para dizer que o Brasil venceu no quesito violência.

Alguns lances da partida:

Também vale lembrar que esta partida foi a primeira da história das Copas a ter três expulsões. O recorde só batido em 2006, no Mundial da Alemanha, naquele memorável Portugal 1x0 Holanda, em que quatro jogadores foram expulsos - todos no tempo normal.

A revanche? O Brasil venceu a Tchecoslováquia por 2 a 1, de virada, com gols de Leônidas da Silva e Roberto para o escrete canarinho e Kopecky para os tchecos.

Surpresos com o "espetáculo" do primeiro jogo, o público foi maior do que na "Batalha de Bordeaux": 22 mil pessoas foram ao estádio esperando uma nova guerra, mas o árbitro francês Georges Capdeville botou ordem na bagunça e o duelo não foi violento. Algumas pessoas ficaram desapontadas, mas o bom futebol e as canelas dos jogadores ficaram muito agradecidos.

Na semifinal, o Brasil perdeu para a Itália por 2 a 1 e ficou com o terceiro lugar após vencer a Suécia por 4 a 2, enquanto a Itália se sagrou bicampeã mundial após derrotar a Hungria na decisão, também por 4 a 2. O detalhe é que o histórico Leônidas foi o artilheiro daquele Mundial com sete gols.

*com supervisão de Leandro Cabido

A série "Manuscritos da Copa" vai contar uma história diferente sobre os Mundiais toda semana até o início da Copa do Mundo.