Quando imaginamos que nos perdemos, é que nos encontramos

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DUKE
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O homem moderno perdeu o sentido da contemplação, de maravilhar-se diante das águas cristalinas do riacho, de encher-se de espanto face a um céu estrelado e de extasiar-se diante dos olhos brilhantes de uma criança que o olha interrogativamente. Ele tem medo de ouvir a voz que lhe vem de dentro, aquela que nunca mente, que nos aconselha, nos aplaude, nos julga e sempre nos acompanha. Essa pequena história de meu irmão Waldemar Boff, que tenta pessoalmente viver no modo dos monges do deserto, nos traz de volta a nossa dimensão perdida. Às vezes, quando imaginamos que nos perdemos, é então que nos encontramos. É o que a história abaixo nos quer comunicar: um desafio para todos. “Era uma vez um eremita que vivia muito além das montanhas de Iguazaim. Fazia 30 anos que para lá se recolhera. Algumas cabras lhe davam o leite diário e um palmo de terra daquele vale fértil lhe dava o pão. Durante o ano todo, sob as folhas de palmeira de cobertura, abelhas vinham fazer suas colmeias. “‘Há 30 bons anos que por aqui vivo!’, suspirou o monge Porfiro. E, sentado sobre uma pedra, o olhar perdido nas águas do regato que saltitavam entre os seixos, deteve-se nesse pensamento por longas horas. ‘Há 30 bons anos e não me encontrei’. “Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, pôs-se a caminho das montanhas de Iguazaim, após a reza pelos peregrinos. Ia visitar Abba Tebaíno, eremita mais provecto e mais sábio, pai de uma geração toda de homens do deserto. “‘Abba, perdi-me para encontrar-me. Perdi-me, porém, irremediavelmente. Não sei quem sou nem para que ou para quem sou. Perdi o melhor de mim mesmo, o meu próprio eu. Busquei a paz e a contemplação, mas luto com uma falange de fantasmas’. E dentro da noite Abba Tebaíno ficou a escutar com ternura infinita as confidências do irmão Porfiro. “Depois, num desses intervalos em que as palavras somem e só fica a presença, um gatinho que já vivia há muitos anos com Abba veio se arrastando de mansinho até seus pés descalços. Miou, lambeu-lhe a ponta reta do burel, acomodou-se e pôs-se a contemplar a lua, que, como alma de justo, subia silenciosa aos céus. “Depois de muito tempo, começou Abba Tebaíno a falar com grande doçura: ‘Porfiro, deves ser como o gato: ele nada busca para si mesmo, mas espera tudo de mim. Toda manhã aguarda ao meu lado um pedaço de côdea e um pouco de leite dessa tigela secular. Depois, vem e passa o dia juntinho a mim. Nada quer, nada busca, tudo espera. Vive por viver, pura e simplesmente. Não se busca a si próprio nem mesmo na vaidade íntima da autopurificação ou na complacência da autorrealização. Ele se perdeu irremediavelmente, para mim e para a lua... É a condição de ele ser o que é e de encontrar-se’. “E um silêncio profundo desceu sobre a boca do penhasco. Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, os dois eremitas cantaram os salmos das matinas. Depois, deram-se o ósculo da partida. O irmão Porfiro retornou ao seu vale, ao sul do deserto de Acaman. Entendeu que, para encontrar-se, deveria perder-se na mais pura e singela gratuidade. “Contam os moradores da aldeia próxima que, muitos anos depois, numa profunda e quieta noite de lua cheia, eles viram no céu um grande clarão. Era o monge Porfiro que subia, junto com a lua, à imensidão infinita daquele céu delirantemente faiscado de estrelas. Agora não precisava mais perder-se porque se havia definitivamente encontrado”.

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