Um jogo de xadrez para toda a família

Grande vencedor da Mostra de Tiradentes em 2013, “Os Dias com Ele” estreia hoje no ci ne CentoeQuatro

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

Escobar X Escobar: Filha confronta o abandono do pai em um duelo fílmico
Vitrine
Escobar X Escobar: Filha confronta o abandono do pai em um duelo fílmico

Em “A Máquina de Visão”, o autor Paul Virilio fala de algo que ele chama de ‘retorno do olhar’. Segundo ele, é uma troca que estabelece segurança, desde um bebê com sua mãe, passando pela “Pietá” de Michelangelo, e que não existe nas chamadas ‘imagens técnicas’. É atrás desse ‘retorno do olhar’ que a cineasta Maria Clara Escobar parte em “Os Dias com Ele”, sua estreia na direção de longas.

No documentário, a jovem paulistana vai até Portugal em busca do pai Carlos Henrique Escobar, um intelectual exilado desde a ditadura que ela nunca conheceu e que jamais tentou se aproximar dela. O filme – que estreou na Mostra de Tiradentes do ano passado, onde ganhou os troféus Barroco de melhor longa segundo os júris jovem e da crítica – estreia hoje no circuito belo-horizontino, no Cine CentoeQuatro.

Com o pretexto de fazer um registro histórico da luta contra a ditadura, Maria Clara tenta, na verdade, estabelecer alguma espécie de conexão e diálogo com um homem que lhe é totalmente estranho e distante. Mas “Os Dias com Ele” não surpreende somente pela frieza e astúcia do intelectual amargo que ela encontra ali – que faz de tudo para dirigir o longa da filha e desmascara logo a busca dela por um “papaizinho” que ele não está disposto a oferecê-la.

O documentário se eleva na mise-en-scêne sofisticada dos enquadramentos e da montagem da diretora. Deixando a câmera ligada após as entrevistas, Maria Clara faz enorme uso do extra-quadro e é no seu domínio da linguagem que ela nivela o campo de jogo e a batalha entre dois mestres de um xadrez intelecto-emocional é encenada.

O duelo fica bem claro em uma cena genial, em que Carlos Henrique sai do quadro para brigar com a filha atrás da câmera, e o espectador só ouve o embate dos dois enquanto vê a imagem da cadeira do pai, vazia. Perversamente divertido e emocionalmente desconcertante, “Os Dias com Ele” é daquelas estreias que deixa o espectador salivando pelo que está por vir.

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