Bardo do Bar: Arcaica Palavra

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Flávio é um nome inventado, porque não o conheço, nunca troquei palavra com ele e, aliás, é a primeira vez que o vejo por aqui, sentado sozinho em uma das mesas do fundo, mais próxima ao balcão, bebericando uma cerveja, fazendo anotações num pequeno bloco e, alternadamente, folheando sem muito interesse uma “O Cruzeiro” carcomida pelo tempo, com óculos cuja espessura das lentes é notável mesmo à distância, o cabelo impecavelmente penteado, camisa social abotoada até o pescoço, o rosto muito pálido de quem não é dado ao sol, enfim, o protótipo do caxias. Márcia chegou um pouco depois e, sozinha como de costume, se acomodou na outra mesa mais ao fundo, ao lado daquela em que Flávio está. Márcia também é um nome inventado. Embora sejamos, possivelmente, os clientes mais assíduos do Arcaica Palavra, nunca interagi com ela, tampouco tenho qualquer informação a seu respeito. Márcia seguiu à risca o ritual de sempre, pediu uma cerveja e uma cachaça a Seu Antônio, pegou a esmo um livro na prateleira, acho que um Dostoievski, abriu em uma página qualquer, mais para o meio do volume, e mergulhou compenetrada na leitura. Flávio assistiu meio catatônico a toda a movimentação de Márcia, desde que pôs os pés dentro do bar até o momento em que, subitamente, levantou os olhos do livro, virou a cabeça para o lado e notou que era observada. Os olhares se cruzaram por um milésimo de segundo, antes que Flávio, visivelmente enrubescido, tentasse disfarçar precariamente o interesse na moça voltando a folhear meio trêmulo a revista que tinha à frente. Márcia não mudou a expressão, apenas ergueu os olhos, percorreu as estantes apinhadas de livros, revistas e publicações de todo tipo, voltou a cabeça para o lado onde eu estava, mirou a rua rapidamente e retomou a leitura. Passados alguns minutos e aparentemente superado o constrangimento, Flávio, ainda com a cabeça baixa, na direção de “O Cruzeiro”, por sobre os óculos mais uma vez fitou Márcia. Ela está com um vestido amarelo de alças finas sobre os ombros e barra que desce até um pouco abaixo dos joelhos. Márcia não é especialmente bonita, mas tenho que admitir que também aos meus olhos, assim como aos de Flávio, é bastante atraente. Talvez seja a postura, a altivez que traz no semblante, os gestos delicados, ou talvez seja o fato de solitária e concomitantemente tomar cachaça e ler a esmo, porém indefectivelmente, os volumes que sempre pega nas prateleiras do Arcaica Palavra. Com o tempo, Flávio, sem tirar os olhos de Márcia, foi levantando a cabeça e empinando o corpo. Agora, aparentemente com a timidez posta de lado, ele fitava acintosamente a moça. Mas bastou que, passado algum tempo, ela, que parecia tão compenetrada na leitura, tirasse novamente os olhos do livro e voltasse repentinamente o rosto na direção de Flávio para que ele, na tentativa meio estabanada de fingir que estava fazendo alguma outra coisa, perdendo completamente a compostura, esbarrasse no copo de cerveja, que tombou sobre a mesa molhando o bloco e a revista. “Mil desculpas”, ele pediu, meio gaguejando, a Seu Antônio, que atenciosamente disse “não tem problema”, e saiu vagaroso de trás do balcão com um pano para secar o líquido e recolher a revista. Márcia não deu trela, observou a tudo com cara de paisagem, tomou outro gole e rapidamente reiniciou sua leitura. Apesar do constrangimento, Flávio não conseguia parar de olhar para Márcia, mas agora o fazia muito dissimuladamente, voltando o rosto com uma rapidez patética para baixo, para o lado, para cima, enfim, para qualquer lugar a cada mínimo gesto da moça, que apenas passava as páginas e sorvia sua cerveja e sua cachaça. Num dado momento, Flávio respirou fundo, estufou o peito, levantou-se abruptamente e caminhou na direção da mesa em que ela estava. Ele ficou em pé ao lado dela, pensei que ia puxar assunto, mas, depois de titubear um pouco, apenas começou a correr os dedos por sobre a lombada dos livros que estavam na estante de onde ela havia tirado o Dostoievski, como quem estivesse escolhendo algum. Mais uma vez de forma abrupta e estabanada, se virou para Márcia e perguntou: “Você vem sempre aqui?”. Ela não respondeu, apenas fechou o livro e ficou olhando fixamente para ele.

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